Para o P. com quem partilho os silêncios (Ana Sofia Melo)
Este texto é um convite a um lugar de silêncio, onde é possível resgatar a inteireza do tempo, de nós, do nosso viver com horas distendidas e perdidas no espaço. Despidos de compromissos, agendas, prazos, tarefas umas a seguir às outras, intervalos para os vários graus de utilidade, eficiência, produtividade, talvez consigamos contrariar o que Vergílio Ferreira escreveu no seu livro Pensar, em 1992:
«Vivemos no tempo do fragmento. Nada é inteiro, consciente, estruturado nos seus elementos. Nada dá de si uma garantia no suporte do que lhe aguente a segurança. Nada tem razão de ser. (…) E temos imensa pressa para irmos onde não sabemos, para virmos de novo a donde não tínhamos partido, não podemos perder tempo como quem o perdeu para nos realizar uma obra. Comemos ao balcão do nosso frenesim, corremos no alvoroço do nosso ser em febre, dormimos nos intervalos de estar sentado no autocarro da nossa velocidade. E lemos então no intervalo de dormir. (…) Ou lemos durante, para mais depressa. Não lemos por inteiro, não somos em nada tudo. Assim em tudo nos falta o que não houve tempo de sermos e isso que nos falta é que era tudo. (…) » Pensar, (#154) Vergílio Ferreira
Estas palavras transpuseram o século XX e encontram na atualidade ecos de verdade e pertinência. Se calhar ainda mais e de forma mais frequente. No entanto, há um espaço onde se pode contrariar cada uma das frases e dar nova oportunidade às palavras, construindo com elas um novo tempo e com ele realidade. Esse espaço fica em Santa Maria do Bouro e chama-se Pousada Mosteiro de Amares.

A estadia ali pode ser breve, mas a experiência vai ser dilatada no interior dos silêncios de cada um que chega e passa a primeira entrada que tem vista para o pátio das laranjeiras. A subida das escadas que dão acesso ao átrio da receção deve ser realizada com a lentidão da fruição de cada degrau. O que espera o hóspede em cada corredor, antecâmara, ligação entre os quartos, as salas que sucedem a salas (de estar, de ler, de jogar snooker, de olhar pela janela para o claustro interior ou jardim exterior) é um ambiente de uma sobriedade que convida a uma suspensão do tempo veloz.
Percorremos os corredores como se imergíssemos na austera e recatada vida monástica. O edifício foi, durante grande parte da sua existência, um mosteiro que remonta ao século XII. A ordem de Cister inscreveu em cada pedra e recanto do mosteiro o apelo ao recolhimento e ao desapego. No claustro, as laranjeiras mais antigas poderiam contar a história do convento e dos seus habitantes ao longo dos séculos. No interior do piso térreo, as salas que se sucedem funcionam como um todo orgânico, pois as portas que antes separavam desapareceram e apenas ficaram os vãos. Mas a lembrança das portas é revivida, uma vez que foram transfiguradas em objetos de contemplação silenciosa – a sua robustez e beleza está bem visível nas paredes laterais ao espaço que um dia ocuparam.
A transformação de que foi alvo todo o mosteiro tem a assinatura de Eduardo Souto de Moura. O arquiteto conheceu o edifício em ruínas e estas dominaram o espaço nos finais do século XX. O antigo que diz a história foi recuperado e integrado na modernidade. O anterior refeitório é agora a sala de refeições e a antiga e imensa chaminé capta todas as atenções. A pedra também está presente no interior e uma das paredes é rasgada por janelas que se abrem para o exterior. As celas austeras e sóbrias dos monges deram lugar a quartos com todo o conforto.

Não importa se a estadia está agendada para o verão ou inverno, pois o fresco ou o calor desejados numa e noutra estação são assegurados. O mobiliário escasso nos corredores (atravessá-los a diferentes horas do dia é uma oportunidade única de desfrutar da luz natural que invade o interior em diferentes matizes) e o dos quartos é da autoria de Siza Vieira. Todavia, o que está no exterior dos quartos sobrepõe-se a tudo o resto – vista limpa para um jardim e o recorte de montanhas que deixam adivinhar o Parque Nacional do Gerês. O Gerês que se insinua em cada janela dos quartos é uma promessa de verde, de flora exuberante e de água cristalina. Se o hóspede decidir dar um saltinho a esse verde, tem a garantia de cerca de 30 quilómetros de antecipação dos prazeres que o esperam.
Mas voltemos ao início, à porta de entrada na história e ao incipit deste texto. Com as laranjeiras, presentes no pátio que convida os sentidos a captarem o aroma e o laranja circular dos frutos suspensos. Há que deixar à porta o ruído, a agenda, a urgência das conversas e dos compromissos. A natureza circundante em forma de árvores, flores, ramadas, trepadeiras vai ser o cenário para o desejo de introspeção, fruição do momento que ali parece perene. Este silêncio no jardim pode ser interrompido pelo coaxar das rãs que habitam num lago, outrora outra coisa, contíguo ao antigo refeitório. É só estar atento e com tempo para que aconteça.
A última vez em Amares terminou com um almoço num restaurante próximo da pousada – Restaurante Cruzeiro. Um restaurante com uma ementa pensada e escrita com sabores de casa e que é a casa de uma família que o dirige há várias gerações. Numa breve conversa com o proprietário, ficámos a saber que o mosteiro, após a extinção da presença religiosa, na primeira metade do século XIX, se tornou o espaço de uma escola, de um liceu, onde ele mesmo tinha estudado. Uma surpresa ou nem tanto, se pensarmos que, durante séculos, as ordens religiosas foram também um garante da cultura, da educação e também da sua transmissão.
Amares é também um espaço de amorosos silêncios, apenas interrompidos pelo desejo da partilha do espanto, da profunda consciência do abrandamento do tempo entre aquelas paredes.
«O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo.» Pensar, (#337), Vergílio Ferreira
Professora. Apaixonada por poesia, livros e viagens. Autora do blogue Cartografia Pessoal.







