Por vezes dou largas à minha imaginação e penso nas crianças com mochilas maiores do que elas, com vidas ocupadas de tal forma que podem fazer inveja a muitos adultos. Depois deixo-me levar e imagino que essas mochilas levam cadernos, lancheiras, estojos e, uma boa dose de expectativas. As suas vidas são cheias: saem da escola, entram no carro, vão para o treino, passam pela explicação ou centro de estudos, chegam a casa, jantam, fazem os trabalhos de casa (coisa que não gosto nada, pois quem é que gosta de estar a “trabalhar” de noite e já cansado? — e, quando finalmente poderiam ter algum tempo… já é hora de dormir.
Se houver um tempo livre, há que o ocupar com alguma coisa. Vivemos um tempo em que queremos dar tudo às crianças e nada tenho contra isso. Queremos proporcionar oportunidades, estímulos, aprendizagens, competências e, já agora, um currículo minimamente competitivo para quando tiverem dez anos. (!) Inscrevemo-las no futebol porque faz bem ao corpo, no karaté porque desenvolve disciplina, na música porque estimula o cérebro, no inglês porque “hoje em dia é fundamental” e em centros de estudo porque mais vale prevenir e antecipar.
Tudo isto faz sentido e tudo tem valor. Se possível, ainda acrescentamos uma atividade “diferenciadora”, daquelas que fica bem nas conversas de pais — “o meu anda em robótica”. O outro responde: “o meu também, mas é em programação avançada”. A criança, essa, provavelmente só queria estar a fazer uma cabana com mantas ou a ver até onde consegue atirar uma pedrinha.
E é aqui que a coisa começa a ter graça — ou a perder a graça, depende de quem analisa. Somando a tudo isto, o que lhes tiramos sem dar conta? Às vezes nem nos apercebemos…Tiramos-lhes tempo. Esse bem precioso que tentamos organizar ao minuto… para crianças que ainda nem deviam saber o que é produtividade. Tempo para brincar sem objetivo. Tempo para inventar jogos com regras que mudam a meio porque “agora já não vale, agora é diferente”. Tempo para ficar aborrecido — esse estado quase proibido nos dias de hoje, mas absolutamente essencial.
Muitas vezes nem nos lembramos que o tédio é o ponto de partida para momentos de criatividade e originalidade. Sem ele, dificilmente nasce aquela ideia brilhante de transformar uma caixa de sapatos num castelo, num carro ou numa nave espacial, tudo ao mesmo tempo e sem manual de instruções. Uma das coisas a que acho mais piada é colocar umas caixas de cartão no recreio e esperar…Adoro ver as crianças a inventar brincadeiras em que se divertem! Lembro-me muitas vezes, de uma conversa que ouvi há alguns anos entre alunos meus. Estavam em grupo, numa troca quase competitiva de atividades, como pequenos adultos a comparar agendas. “Eu ando no futebol”, dizia um, com ar seguro. “Eu faço karaté”, respondia outro. “Eu jogo andebol”, acrescentava um terceiro.
Fiquei a ouvir, claro, a curiosidade mata-me. Acho que eles não se aperceberam que estavam a “recitar” supostas competências. Foi então que um dos meninos, mais calado até então, disse com toda a naturalidade: “Eu ando na terapia da fala.” Houve um pequeno silêncio. Não um silêncio desconfortável, mas aquele instante em que ninguém sabe muito bem como reagir.
Ora ali estava uma atividade que mais nenhum fazia. Aquele rapaz sempre foi diferente, mas por aquela ninguém esperava. Não sendo eu participante daquela conversa, dei uma gargalhada. Não devia, mas não controlei. De repente, na minha cabeça fez-se uma espécie de igualdade improvável: claro, tudo aquilo era apenas… agenda. Futebol, karaté, andebol ou terapia — tudo cabia no mesmo lugar da vida deles: o tempo depois da escola, organizado pelos adultos, obviamente com boas intenções, nunca ponho isso em causa.
Acho que foi aí que percebi que, para aquelas crianças, o tempo livre não era uma evidência — era quase um intervalo. Não há nada de errado nas atividades, importa dizer. Muitas são fundamentais, algumas fazem toda a diferença e outras são, simplesmente, uma fonte de alegria. O problema não está em existirem. Está em não deixarem espaço para mais nada. Acho que essa nada assusta-nos e esquecemo-nos, que pode ser um território fértil para as crianças. O nada onde se descobre como passar o tempo, como inventar, como lidar consigo próprio sem instruções nem supervisão. O nada onde se pode brincar, inventar, imaginar. Sozinho, ou não, com um pau, uma pedra ou uma caixa. Sem objetivos, sem avaliações, sem resultados para mostrar.
Talvez o verdadeiro luxo, hoje em dia, para uma criança, seja esse tempo sem propósito. Tempo que não serve para “preparar o futuro”, mas que constrói memórias do presente. Tempo para estar em família sem pressa, sem o “come rápido que temos de ir”, sem o “despacha-te que estás atrasado”. Tempo para conversas que não cabem entre atividades, nem em agendas. No meio de tanta preocupação em preparar as crianças para o futuro, talvez valha a pena parar e analisar se estaremos a dar-lhes ferramentas… ou a tirar-lhes o tempo? E, quando esse tempo passar — porque passa depressa — será que vão lembrar-se das atividades que fizeram… ou do tempo que não tiveram?
E, no meio desta reflexão, não posso deixar de fazer também o mea culpa. Dentro da sala de aula, existe um ritmo, um programa a cumprir, objetivos a atingir — e, muitas vezes, pouco espaço para o tempo parado. Para aquele instante em que aparentemente “não se faz nada”, mas onde, na verdade, muita coisa acontece. Também eu, por vezes, cedo à pressão de preencher cada minuto com tarefas, conteúdos, atividades. No entanto, é precisamente nesses momentos mais livres, menos dirigidos, que surgem perguntas inesperadas, ideias criativas, ligações que não estavam planeadas, conversas que não têm fim e que ocupam tempo de aula, mas conversas importantes. Talvez seja importante lembrar — a mim própria incluída — que nem todo o tempo útil tem de parecer produtivo.
Porque é, muitas vezes, nesse espaço mais solto que o verdadeiro desenvolvimento acontece.







