Em Teoria do Conhecimento, Johannes Hessen define o dogmatismo do seguinte modo: “entendemos por dogmatismo a posição epistemológica para a qual não existe ainda o problema do conhecimento.” Ainda de acordo com o autor, a atitude dogmática “tem por supostas a possibilidade e a realidade do contacto entre o sujeito e o objeto. É para ele evidente que o sujeito, a consciência cognoscente, apreenda o objeto.” Significa isto que a atitude dogmática assenta na confiança da racionalidade humana, a qual ainda não se encontra enfraquecida pela dúvida.
Estendendo-se a domínios tão diversos que vão desde a política, à ética e à religião, pode mesmo considerar-se que a atitude dogmática do homem ingénuo constitui a primeira posição e a mais antiga, tanto do ponto de vista psicológico, quanto histórico. Do ponto de vista psicológico, a infância é caracterizada pela atitude dogmática: a criança acredita ingenuamente que existem fadas ou que o pai natal regressará da Lapónia no mês frio de dezembro. Do ponto de vista da História das Ciências sucede algo semelhante. É neste contexto que se pode afirmar que, entre os pré-socráticos, as reflexões epistemológicas não têm ainda lugar. De uma forma geral, os dogmáticos esquecem-se que entre o sujeito e o objeto, entre o homem e a realidade, existe uma imagem ou representação. Esquecem-se que o conhecimento não é imediato, mas mediado. O conhecimento é uma construção.
Quanto a mim, confesso que tenho pavor dos dogmáticos e dos fundamentalistas. Seja no domínio da política, da ética ou da religião, os dogmáticos acreditam estar na posse da verdade absoluta. Como Bertrand Russell bem notou – não sem algum sentido de humor – “o problema deste mundo é que os idiotas estão cheios de certezas e os inteligentes cheios de dúvidas”.
Se é legítima e desejável a procura do conhecimento e da verdade, a crença numa verdade absoluta pode redundar – como, normalmente, acontece – numa espécie de cegueira intelectual, conducente à intolerância, à perseguição e à discriminação. O dogmático é totalitário e, na vertente religiosa, é “monoteísta”. O seu Deus é único e, por conseguinte, um deus ditador. Por isso, o dogmático não aceita outras perspetivas ou outros pontos de vista.
As cosmovisões dogmáticas terão estado na origem de instituições tenebrosas como o “santo ofício “, cuja “missão” era investigar os “conversos” por, supostamente, praticarem, em segredo, outra religião que não a ortodoxia católica. Eis como o dogmatismo abriu, literalmente, a caça às bruxas. Além das bruxas, a inquisição ocupou-se dos bígamos, dos blasfemos, dos homossexuais, dos sacerdotes que tentavam seduzir mulheres e dos livros contrários à ortodoxia católica. Mais tarde, no século XVIII, o seu objetivo era perseguir os maçons, os deístas, os filósofos e os dissidentes políticos. Tudo em nome de uma suposta verdade absoluta ou opinião fixa.
Sim, é legítima e desejável a procura do conhecimento e da verdade. Mas essa legitimidade só pode advir de um trabalho inicial de investigação. Apenas a dúvida inicial poderá legitimar alguma espécie de conhecimento ou de verdade. Como bem refere Victoria Camps (Elogio da Dúvida), “aprender a duvidar significa distanciar-se do que é dado e pôr em causa os lugares-comuns e os preconceitos, questionar o que nos é oferecido como inquestionável.














