O respeito que se aprende (ou se perde)

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Há dois meses passei a deslocar-me em transportes públicos por várias razões, que agora pouco interessam, mas que me trouxeram uma nova forma de observar o quotidiano que antes me passava ao lado.

Sempre tive esta opinião, mas ela tem-se reforçado: há algo de profundamente revelador em observar as pessoas, os seus comportamentos, as suas formas de estar, reagir e coexistir num espaço tão partilhado como o transporte público. E, nesses pequenos trajetos, tenho vindo a reparar em situações que me deixam a pensar, não com revolta, mas com alguma inquietação sobre o rumo que estamos a tomar enquanto sociedade.

O que mais me tem chamado a atenção é uma tendência que parece cada vez mais comum: uma proteção muito intensa das crianças, que, em alguns casos, acaba por inverter certos equilíbrios de convivência. Vejo crianças sentadas enquanto adultos, muitas vezes mais velhos, permanecem de pé. Vejo pais a abdicar dos seus lugares para os filhos, enquanto seguram mochilas e outros pertences, como se a prioridade absoluta fosse garantir o conforto imediato às crianças, independentemente do contexto. Vejo também crianças ocuparem lugares enquanto entram no autocarro pessoas que, por vezes, têm naquele breve trajeto o único momento de descanso do seu dia.

E não é raro perceber que essa lógica se estende aos mais jovens em geral, onde poucos se levantam para ceder o lugar a alguém mais velho ou mais fragilizado. Já o fiz por diversas vezes e recordo-me de um episódio que me marcou: cedi o meu lugar a uma senhora que, mal se sentou, acabou por dá-lo a uma criança, que nem era sua. São pequenos gestos, mas que levantam questões maiores sobre prioridades e educação. Não se trata de negar às crianças o cuidado ou a atenção de que necessitam, nem de defender uma hierarquia rígida e inflexível de comportamentos. Trata-se, isso sim, de lembrar que o respeito pelos mais velhos sempre foi um dos pilares da convivência em sociedade.

Ensinar uma criança a sentar-se não deve significar esquecer que alguém mais velho pode precisar mais daquele lugar. Proteger não deveria significar excluir a noção de partilha, de empatia e de respeito pelo outro. Talvez o que esteja em causa não seja apenas quem se senta ou quem fica de pé, mas a forma como estamos a educar o olhar sobre o outro. Uma sociedade constrói-se nestes detalhes invisíveis do dia a dia, na forma como reconhecemos necessidades diferentes e na capacidade de equilibrar direitos com sensibilidade. E se é verdade que devemos cuidar das crianças, também é verdade que não podemos deixar de cuidar da dignidade dos mais velhos. Talvez valha a pena refletir se não estaremos, sem querer, a criar uma geração que cresce protegida de tudo, mas pouco consciente do lugar do outro. O respeito não se ensina apenas com palavras, mas sobretudo com exemplos no quotidiano. E é nesses gestos simples, como ceder um lugar, que se constrói a verdadeira educação cívica. Talvez seja aí que começa uma sociedade mais equilibrada.

Uma sociedade que não cuida dos seus mais velhos, nem lhes reconhece o lugar que merecem, dificilmente será uma sociedade que possamos dizer que valoriza verdadeiramente a sua própria humanidade.

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