Sábado, 18 horas. Juntavam-se cada vez mais pessoas à chamada Zoom de um grupo dedicado
a pôr fim à toxicodependência. Subitamente, ouviu-se: “Olá, sou o B. e sou um adicto”.
Os presentes apressaram-se a dar as boas-vindas àquele que decidiu ser o primeiro a fazer uma
partilha honesta. “Quando cheguei, eu não sabia quem era. Representei tantos papéis a usar
drogas para conseguir sustentar o meu vício… Com a luta constante de negar o problema
perante mim e os outros, deixei de saber quem era. Chegado aqui, comecei a perceber que tinha
de falar de mim com toda a honestidade, falando das minhas qualidades e dos meus defeitos,
para conseguir fazer escolhas e reconstruir esta personalidade que estava completamente
destruída pelo uso das drogas”, disse, revelando ainda que a sua participação progressiva nas
reuniões fê-lo entender que confessar aquilo que sentia não constituía nenhum pecado: pelo
contrário, era a coisa mais acertada. “Ninguém me rejeitava nem julgava por ser assim. Fui
perdendo o medo de dizer quem sou. Fui percebendo o que faz de mim uma pessoa melhor, e
que à medida que ia praticando a honestidade comigo, ia tendo uma perspetiva mais verdadeira
de mim. Comecei a perceber que sempre tive uma parte espiritual em mim. Antes, era uma
espiritualidade muito doentia: baseava-se na minha garrafa e nas drogas que fumava e injetava.
À medida que fui falando de mim, confiando nos outros e seguindo sugestões, fui fazendo
escolhas mais saudáveis para a minha vida e hoje a conceção que tenho de mim é que sou um
ser espiritual. Estou a ter uma experiência humana, cometo erros, sinto uma imensidão de
coisas e é ok sentir isso tudo”.
Gratidão
B. acrescentou ainda que, através da sua participação no grupo,
adquiriu ferramentas que o auxiliam a lidar com a dor: “Se fizer as escolhas espirituais que este
programa sugere, vou sentir-me diferente, melhor. Não vou reagir, vou agir. Faz toda a
diferença: dantes reagia e desgovernava a minha vidinha toda. Por muita razão que tenha, a
forma como me expresso faz com que a perca. A razão não me faz feliz: quero ser feliz e quero
chegar ao final do dia sabendo que fiz o melhor para me sentir o melhor possível comigo e com
os que me rodeiam, com a minha vida e com a minha realidade. Isto tem sido possível graças
ao programa, às pessoas, à conversa. Quero agradecer-vos por estarem desse lado todas as
semanas e por me ajudarem a manter em recuperação. Fazer parte desta irmandade é brutal”.
Segundo os dados mais recentes do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as
Dependências (ICAD), mais de 24 mil pessoas estavam em acompanhamento na rede pública
especializada em 2023. O número inclui tanto novos pedidos de ajuda como utentes em
seguimento há vários anos e revela que a dependência continua a ter uma expressão relevante
no país.
A canábis mantém-se como a substância ilícita mais consumida, sobretudo entre os
mais jovens, mas é a cocaína que tem concentrado parte das maiores preocupações. De acordo
com o relatório europeu mais recente, esta substância esteve presente na maioria das mortes
por overdose registadas em Portugal, um dado que espelha mudanças no perfil do consumo e
acompanha também o papel crescente do país nas rotas de entrada da cocaína na Europa. Aliás,
no passado dia 17 de maio, o jornal Expresso noticiou que as lanchas rápidas se tornaram uma
das principais preocupações das autoridades portuguesas no combate ao tráfico de droga. A
Polícia Judiciária considera que estas embarcações de alta velocidade representam atualmente
a maior ameaça neste tipo de criminalidade, sobretudo devido à facilidade com que conseguem
atravessar rotas marítimas no Atlântico e aproximar-se da costa portuguesa com grandes
quantidades de estupefacientes.

De acordo com a publicação, citando declarações do diretor da Unidade Nacional de Combate
ao Tráfico de Estupefacientes da PJ, Artur Vaz, estas embarcações estão a ser usadas em
corredores marítimos entre os Açores, a Madeira e as Canárias, funcionando como um meio
rápido de transporte até à Península Ibérica. A velocidade elevada e a grande capacidade de
manobra tornam a interceção particularmente difícil para as autoridades. O Expresso sublinhou
ainda que Portugal tem vindo a ganhar relevância nas rotas internacionais da cocaína, num
contexto em que a droga chega por mar proveniente sobretudo da América Latina. Nos últimos
anos, as apreensões de “narcolanchas” têm aumentado e a pressão policial sobre estas rotas
intensificou-se, acompanhando uma preocupação crescente com a utilização do espaço
marítimo português como ponto estratégico de entrada de droga na Europa.
“Nova forma de vida”
Na reunião, S. questionou: “O que é que mudou em mim ao longo deste tempo?” e apressou-
se a responder: “Muita coisa, mas ainda há muito para mudar”, abordando os doze passos,
programa criado nos Estados Unidos em 1935 por Bill W. e Dr. Bob S., para o auxílio do
alcoolismo e mais tarde abrangido a todas as dependências químicas: “Em relação aos doze
passos, tenho muito a fazer. Quanto ao meu poder superior, continuo a questioná-lo. Na reunião
passada, após a minha partilha, um membro disse que sentia medo daquilo que me poderia
acontecer nesse dia. E hoje gostaria de lhe agradecer por ele ter dito isso, porque ao dizê-lo,
senti a preocupação, o carinho, o aconchego e isso fez com que não fosse lá fora [drogar-me].
Fui só fumar um cigarro. Às vezes uma palavra, uma atitude faz a diferença. A semana foi
correndo com altos e baixos. Obrigada a todos por me ouvirem e mais 24”.
F. admitiu ter estado “completamente apaixonado pelo uso” e ter tentado pôr fim, pela primeira
vez, à sua vida aos 24 anos: “Já estava tão cheio de droga que me tentei suicidar. Comprava
droga para me matar, nem era para curtir. Comprava doses industriais para ver se me ficava no
próximo chuto”, até que descobriu “uma nova forma de vida”. “Não foi fácil parar de mentir,
sentir-me um ser humano, não me sentia um ser humano, sentia-me um nada”, avançou. “Nos
primeiros tempos de recuperação, ao ir para casa, um membro do grupo acenou-me e isso deu
me uma alegria tão grande! Pensei: ‘Epá, alguém me conhece!’. Construir a minha
personalidade, o meu eu, não foi nada fácil. Entrei em recuperação com 38 anos, foi uma longa
caminhada de uso. Era suposto que uma pessoa com este percurso não pensasse mais em
drogas, mas ainda hoje tenho vontades de uso. E lembro-me de que, nos primeiros tempos, saía
do trabalho e ia diretamente para uma reunião, a rezar a todas as alminhas que me protegessem
para chegar lá, porque ia carregado de vontade de uso. A meditação tocou-me bastante. Faço
reuniões físicas e online. Tenho os meus afilhados e também sou afilhado. Hoje estou muito
feliz nesta nova fase de vida. Sempre que falo em felicidade lembro-me de que estou
desempregado e penso ‘Estás feliz, mas estás aí à toa na vida?’, mas a verdade é que estou
muito contente por não ter que roubar e fazer 30 por uma linha para obter drogas. Hoje tenho
amigos, bastantes, basicamente todos do grupo porque dos meus amigos da droga… acho que
só dois é que estão vivos e em recuperação. O resto morreu pelo caminho”, lamentou antes de
acrescentar: “Ter umas chaves de casa e saber que vivo com alguma autossuficiência foi
importantíssimo para a minha autoestima e para a minha recuperação. Estou muito grato por
esta irmandade. A minha capacidade de viver em recuperação tem vindo a ser alterada ao longo
dos tempos: hoje em dia estou muito mais perto de usar drogas do que no início de recuperação,
estou mais vulnerável, porque a minha agilidade mental é muito superior. Posso de um
momento para o outro perder as estribeiras e voltar lá. Para isso não acontecer vou a reuniões,
falo de mim, estou sempre muito ativo. Isto parece ser cansativo, mas não é: como gosto de
mim faço isso por mim e acabo por ajudar outras pessoas naturalmente. Obrigada a todos e
mais 24”.
Comprar drogas online
Os padrões de consumo relatados vão ao encontro daqueles que são relatados desde por volta
dos anos 80, mas surgem novos desafios ligados às substâncias psicoativas emergentes e aos
consumos em contextos recreativos, sobretudo entre a população mais jovem.
Especialistas apontam ainda para realidades distintas que coexistem no terreno: consumidores envelhecidos
com décadas de dependência, pessoas em situação de sem-abrigo e novas gerações associadas
a padrões de consumo diferentes, mais dispersos e por vezes menos visíveis.
Portugal continua a ser apontado internacionalmente como exemplo pela política de descriminalização e pela
aposta na saúde pública. Ainda assim, os dados mais recentes mostram que o fenómeno está
longe de desaparecer: e que a resposta terá de acompanhar uma realidade cada vez mais
complexa e em mudança. A título de exemplo, o Sumário Executivo dos Relatórios Anuais para
2024 do ICAD revela que a compra de drogas online está a aumentar: dos novos consumidores
de substâncias psicotrópicas, 27% adquiriram-nas na internet.
Estreia online
De regresso ao Zoom, foi a vez de T., um newbie das reuniões virtuais, ter o seu momento de
desabafo: “É a minha primeira vez aqui. Sou um privilegiado porque tenho reuniões todos os
dias no Porto. Tomei as reuniões por garantidas, tanto que nunca percebi a falta que me faziam
até ter tido um acidente, há cerca de um mês e meio, num batismo de surf. Ao cair bati com a
cabeça e fraturei a coluna cervical, ainda estou a recuperar em casa. Só agora é que me apercebo
da falta que me fazem as reuniões. Costumo frequentar quatro reuniões por semana. Com quase
quatro anos de recuperação uma das coisas que me têm mantido limpo é ser muito ativo: estar
com os amigos, nas reuniões, trabalhar, fazer desporto, relacionar-me com as pessoas. Sempre
foi muito difícil estar em casa e por isso tem sido um desafio. O médico receitou-me Tramal
[analgésico que pertence à classe dos opiáceos e que atua sobre o sistema nervoso central] e
recusei porque prefiro aguentar as dores, prefiro dormir 2/3 horas, 4 com sorte. Eu acredito
muito no meu poder superior e que devemos ler os sinais e que nada é por acaso. E tenho estado
a tentar perceber o porquê disto. Eu estava sempre muito apressado em recuperar o passado,
aqueles anos em que não aprendi nada nem fiz nada de jeito. Este acidente deu-me que pensar,
começo a dar valor a pequenas coisas, como as reuniões, porque dantes eram garantidas… aos
amigos, à saúde, não tanto ao dinheiro nem ao trabalho, são coisas que não interessam para
nada”, realçou, adiantando: “O médico disse que podia ter ficado tetraplégico e imaginar isso…
É como se me tivessem dado uma segunda oportunidade para fazer que os anos de vida que aí
vêm valham a pena. E aquilo que tinha traçado na vida como objetivos agora pouco interesse
tem. Se calhar, andava a fazer algumas coisas mal. Isto deu-me a oportunidade de repensar tudo
e aperceber-me daquilo que realmente interessa, fazer o bem, ajudar os outros, sobretudo.
Obrigado a todos, mais 24”.

Reuniões presenciais e online
L. desvendou a relação padrinho-afilhado: “O padrinho é aquela pessoa com quem falamos
sobre coisas íntimas, com as quais muitas das vezes não sabemos lidar e que nos corroem. Às
vezes o meu padrinho não tem a solução porque não passou pela mesma experiência que eu e,
portanto, vai pedir ajuda ao padrinho dele. Esta relação baseia-se num elo de confiança.
Aprendi aqui no grupo a falar de sentimentos. O padrinho é a pessoa que está la para mim. Este
programa funciona com a terapia de um adicto a outro e resulta. Cá fora, se quiseres falar com
alguém, o que ouves geralmente é: ‘Desculpa lá, não tenho tempo para ti agora’. E aqui isso
não acontece! A coisa boa que as drogas me trouxeram foram estas pessoas em recuperação. O
programa funciona por sugestões e atração. Eu não conhecia o meu padrinho de lado nenhum.
Conheço uma pessoa com quem me identifico e peço-lhe para ser meu padrinho ou madrinha”.
Quanto às diferenças entre as reuniões físicas e online, F. esclareceu: “A única diferença é que
nas reuniões físicas, nós passamos um saco no final da reunião para recolhermos dinheiro.
Somos autossuficientes, não pedimos doações nem patrocínios a ninguém. Abrimos uma
reunião, juntamos as pessoas e pagamos as rendas. A reunião do Zoom é perfeitamente legal.
As pessoas que estão no estrangeiro também podem fazer doações”.
A este propósito, importa referir que a evidência científica disponível aponta que reuniões e acompanhamento online
podem ser uma ferramenta eficaz no tratamento das dependências químicas, sobretudo por
reduzirem barreiras de acesso e facilitarem a continuidade do apoio. Ainda assim,
investigadores sublinham que o contacto presencial continua a ter um papel importante e que,
para muitos doentes, a combinação entre ambos parece oferecer melhores resultados. Por
exemplo, tal é nítido em Predictors and outcomes of online mutual-help group attendance in a
national survey study, realizado por investigadores do Department of Psychiatry and
Behavioral Sciences da Stanford University School of Medicine e do Alcohol Research Group
de Emeryville, sendo que este estudo longitudinal sobre participação em reuniões online de
recuperação (como 12 passos, SMART Recovery e grupos semelhantes) concluiu que estas
reuniões podem ser úteis, sobretudo para pessoas em fases mais iniciais da recuperação ou que
procuram apoio adicional entre consultas.
Os autores referem que o formato remoto tende a aumentar a acessibilidade e pode ajudar a manter ligação à comunidade terapêutica. Por outro lado, em How Individuals Seeking Help for Substance Use Disorder Adjusted to Virtual 12
Step Meetings During the COVID-19 Pandemic (de Connie Hassett-Walker, da Norwich
University, nos EUA), entre outros artigos científicos, fica provado que as pessoas que vivem
longe dos centros de tratamento, quem tem mobilidade reduzida, as pessoas com
responsabilidades familiares e os utilizadores que evitam reuniões presenciais por vergonha ou
medo de serem reconhecidos podem ter a sua vida facilitada se o primeiro contacto com este
tipo de grupos ou apoio especializado for feito online.
Apesar do crescimento das reuniões online e da evidência científica que aponta benefícios no
acompanhamento à distância, o apoio presencial continua a ter um papel central no tratamento
das dependências. Numa reportagem publicada no SOL e no i em agosto de 2023, sobre a
clínica Mais24, em Carcavelos, foi mostrado como a recuperação também se constrói na
proximidade diária, através do acompanhamento multidisciplinar e da partilha presencial entre
profissionais, doentes e famílias. Com uma abordagem que junta psicoterapia, psiquiatria,
terapia ocupacional, nutrição e atividade física, a clínica aposta num modelo de ambulatório
pensado para ajudar os utentes a enfrentar a adição em simultâneo com os desafios concretos
da vida quotidiana. A reportagem destacava ainda o apoio prestado às famílias e a importância
de olhar para a dependência como uma doença crónica e tratável, numa recuperação que, para
muitos, continua a encontrar no espaço físico um lugar essencial de pertença e reconstrução.
“Agradeço à minha irmã que fez queixa de mim à CPCJ e que me fez entrar num processo de
quase perda dos meus filhos. A coisa que mais me magoou foi telefonarem-me do infantário de
um dos meus filhos e dizerem-me que não havia reconhecimento filho-mãe através de uma foto
minha. Pensar que o meu filho nem sequer sabia como eu era foi um enorme balde de água fria
para mim”, disse C., à sua vez, que terminou o seu testemunho em tom jocoso: “As pessoas do
meu bairro até apostas faziam sobre o tempo em que eu ia estar em recuperação!”. Uma revisão
muito citada nos EUA, publicada no Substance Abuse and Rehabilitation, estimou que entre
metade e três quartos das pessoas com perturbação por uso de substâncias acabam por atingir
uma recuperação sustentada ao longo da vida. Ou seja: mesmo depois de períodos longos de
dependência, a recuperação é possível e bastante mais comum do que muitas vezes se pensa.

Deus
Um dado frequentemente citado pelo National Institute on Drug Abuse (NIDA) vai no mesmo
sentido: muitas pessoas recuperam ao longo do tempo, ainda que com recaídas intermédias.
B. voltou a falar e não deixou de realçar que a abstinência total e contínua “é o ponto de partida
para a recuperação que constitui o novo modo de vida dos adictos, que iniciam a sua viagem
de autoconhecimento através dos doze passos”. Estes baseiam-se em princípios espirituais
como a boa vontade, a mente aberta, a honestidade e a paciência e noutros conceitos, como o
dos 90 dias, 90 reuniões, o da importância do recém-chegado, o das sugestões porque “os
adictos gostam de que as coisas lhes sejam sugeridas e não impostas” e o só por hoje “que é
diferente do nunca mais”, daí ser usado sempre o termo “mais 24”, que simboliza o desejo de
mais 24 horas de abstinência.
Os programas assentes nos 12 passos continuam a ser uma das
abordagens mais conhecidas no apoio à recuperação da dependência. A evidência científica
disponível aponta que podem ser tão eficazes como outras intervenções e, em alguns casos,
mais eficazes na manutenção da abstinência a longo prazo. Uma revisão da Cochrane publicada
em 2020 concluiu que estas abordagens aumentam a probabilidade de abstinência sustentada,
sobretudo quando associadas a acompanhamento regular e à integração numa comunidade de
pares. Ainda assim, especialistas sublinham que não existe um modelo único: a resposta tende
a depender do perfil de cada pessoa e do tipo de apoio com que melhor se identifica.
M., que chegou a passar fome, hoje lidera uma empresa de sucesso: “A maior parte das pessoas
chega às reuniões pelos motivos errados. Há pessoas que são obrigadas, há outras que pensam
que se há drogados, há droga. O meu problema não eram as drogas, o meu problema era eu.
Não parei de usar drogas por querer. As drogas eram importantíssimas na minha vida. Parei
porque percebi que o outro lado era melhor. Todos os dias, ia dar aulas de Educação Física e
tinha que passar por dealers. E rezava, pedia a Deus que me protegesse, que me fizesse ter
força para não ir comprar aquelas porcarias. A taxa de sucesso deste programa não é tão elevada
quanto gostaríamos, mas para quem tem a perspetiva de que é impossível, como eu, o grupo
tem muito sucesso!”.














