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Terça-feira, Fevereiro 24, 2026

Festival Terras Sem Sombra| Arronches recebe invulgar concerto de piano e histórias de contrabando

Arronches acolhe, numa parceria com o Município local, o primeiro fim de semana da 22.ª temporada do Festival Terras sem Sombra (TSS), subordinada ao tema «“Alegres Campos, Verdes Arvoredos”: Música e Biosfera (Da Idade Média à Criação Contemporânea)». A 28 de fevereiro e 1 de março, o programa assume contornos de excecionalidade, com a música do ensemble polaco Zarębski Piano Duo, num concerto de homenagem à criação musical no Feminino e no ano em que a Polónia é o País Convidado do TSS.

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Por seu turno, a visita ao património detém-se na linha de fronteira e nos contextos históricos e sociais que proporcionou, com realce para o contrabando, muito importante na zona, num passado ainda não muito distante, e as relações de solidariedade entre os dois vizinhos ibéricos. Destaque para a visita, na localidade do Marco, daquela que é a mais pequena ponte internacional do mundo. A findar a jornada por terras de Arronches, a manhã de domingo, 1 de março, reserva tempo e espaço ao importantíssimo papel das mulheres na agricultura, «Guardiãs do Futuro Comum da Humanidade».

A Mulher na criação musical

O concerto, na noite de sábado (21h30), intitula-se «Um Piano, Quatro Mãos: Obras de Compositoras Polacas e Portuguesas dos Séculos XX-XXI». A igreja matriz de Arronches, classificada como Monumento Nacional, acolhe o polaco Zarębski Piano Duo, com Grzegorz Mania e Piotr Różański, que interpreta peças de compositoras polacas e portuguesas.

Direitos Reservados

Este ensemble, nascido em Cracóvia, dedica-se principalmente ao repertório para piano a quatro mãos, com especial incidência nas obras dos séculos XIX e XX, conciliando o grande cânone europeu com programas menos frequentados. O diálogo entre os dois intérpretes, o equilíbrio tímbrico e a clareza formal são elementos centrais da sua leitura dos repertórios escolhidos, denotando sempre um assinalável critério artístico, reconhecido pela crítica internacional.

Idade regular na Polónia e no estrangeiro, com concertos em diversos países da Europa e do Médio Oriente, além de extensas digressões nos Estados Unidos. Toca amiúde peças de Brahms, Dvořák, Schubert, Moszkowski, Mozart, Barber, Ligetti e Corigliano. Este conjunto de câmara tem estreado importantes obras de muitas autoras contemporâneas, incluindo Hanna Kulenty, Anna Rocławska-Musiałczyk, Katarzyna Kwiecień-Długosz, Anna Ignatowicz-Glińska e Joanna Bruzdowicz. Na noite de 28 de fevereiro, serão escutadas peças de nicho, raramente apresentadas.

 Na mais pequena ponte internacional do mundo

Do ponto de vista do Património, o fim de semana arronchense reserva a tarde de 28 de fevereiro (15h) ao tema «Raia, Identidades e Contrabando: A Fronteira Invisível», numa ação que une os Municípios de Arronches e La Codosera (na província de Badajoz). A guiar os participantes vão estar, além de habitantes locais de um e de outro lado da fronteira, Dulce Simões (antropóloga e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa), especialista no estudo das comunidades raianas do Alentejo, e José António Falcão (historiador de arte e investigador do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta), perito em património religioso.

O percurso começa na igreja de Nossa Senhora da Esperança, notável monumento do século XVI, de onde se parte para o Marco, localidade detentora de uma singularidade: ali se localiza a ponte internacional mais pequena do mundo, com 6 m de comprimento (a sua concorrente, mais extensa, une o Canadá à Rússia).

A povoação, metade portuguesa, metade espanhola, dispõe-se nas duas margens da ribeira de Abrilongo, compondo um sítio de grande beleza. Na parte lusa ainda existe algum comércio, resquício de outros tempos.

A atividade de sábado propõe uma leitura da fronteira como espaço histórico e social ainda bem presente no quotidiano de Arronches. Este território situa-se numa das fronteiras mais antigas da Europa, definida em 1297 pelo Tratado de Alcanizes. No século XX, o contrabando tornou-se uma prática recorrente de subsistência, criando redes informais entre aldeias portuguesas e espanholas. A raia foi também espaço de passagem de refugiados e opositores políticos, deixando marcas na memória coletiva.

Direitos Reservados

Ano Internacional da Mulher na Agricultura

No domingo, 1 de março (9h30) a ação de Salvaguarda da Biodiversidade é consagrada ao tema «As Mulheres na Agricultura: Guardiãs do Futuro Comum da Humanidade». Esta iniciativa, com ponto de encontro no Centro Interativo da Ruralidade de Arronches (CEIRA) — de onde se sairá, em autocarro, para o Monte da Sancha —, conta com a participação de um painel de três mulheres fortemente empenhadas no mundo rural e que se salientam como modernas empresárias agrícolas: Inês Dragão, Maria João Valentim e Fermelinda Carvalho.

Sublinhando a importância (e a premente necessidade) de políticas eficazes para a igualdade de género nos sistemas agroalimentares, 2026 foi declarado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. Em Arronches, como em grande parte do interior alentejano, as mulheres rurais tiveram ¬— e têm cada vez mais — um papel relevante na agricultura familiar e na gestão sustentável da terra.

Guardaram sementes, preservaram a diversidade agrícola e transmitiram saberes essenciais sobre solos, ciclos e plantas. Hoje, perante o envelhecimento, o despovoamento e as alterações climáticas, esse conhecimento revela-se decisivo. A iniciativa propõe refletir sobre as mulheres rurais como agentes de sustentabilidade, segurança alimentar e biodiversidade, entre memória e futuro, a partir de três experiências inspiradoras, num local de grande beleza.

A 28 de março (17h), o Auditório Municipal António Chainho, em Santiago do Cacém, acolhe o Prémio Internacional Terras sem Sombra, sob a presidência da Infanta D. Maria Francisca de Bragança, Duquesa de Coimbra. Uma iniciativa com duas novas categorias: «Sons sem Sombra», para novos talentos na música, e «Serviço à Comunidade/Cooperação Internacional». Distinções que se juntam às três modalidades tradicionais do Festival: Música, Património Cultural e Salvaguarda da Biodiversidade.



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