Durante nove dias vivi sem água, sem eletricidade e sem comunicações. Não é uma conveniente dramatização. Foram nove dias reais, contínuos, em que a normalidade desapareceu por completo e em que a fragilidade do nosso modelo de organização coletiva ficou exposta de uma forma quase obscena. A tempestade Kristin levou telhados, muros e infraestruturas. Levou também a ilusão de que existe sempre um plano, uma resposta rápida, uma entidade preparada para nos acudir quando tudo falha.
A primeira noite é algo que ainda não consigo organizar em palavras. O barulho, a sensação de impotência, o medo de não saber o que ainda podia ruir e, a súbita a consciência de que estávamos entregues a nós próprios.
Não temos linhas de apoio eficazes, não temos informação clara, não temos uma presença institucional que transmita segurança mínima. Há apenas pessoas. Famílias. Vizinhos. Empresas locais. Houve quem partilhasse água, quem emprestasse geradores, quem abrisse as suas portas para guardar alimentos, quem partilhasse powerbanks e os carregasse nas suas viaturas, quem improvisasse soluções com gás butano para cozinhar ou aquecer água e garantir os mínimos de higiene. Houve filas intermináveis em fontes de água potável pela necessidade básica de sobrevivência.
Meus caros, como é possível que, em pleno século XXI, uma região inteira fique praticamente isolada durante dias, sem um plano, sem comunicação estruturada, sem coordenação eficaz? O que nos diz isto sobre o real grau de preparação das nossas instituições? O que aconteceria se uma situação desta natureza atingisse uma fatia maior do território, ou mesmo o país inteiro? Iriamos esperar ajuda externa? Ficaríamos à espera de uma salvação divina?
Talvez nos tenhamos habituado demasiado à narrativa do salvador, do super herói, da milagrosa intervenção que tudo resolve. Vemos isso nos filmes, nas séries da tv, nos discursos políticos. E, pouco a pouco, fomos aceitando a perigosa ideia de que a preparação é algo opcional, de que o planeamento é dispensável, de que a resposta pode ser sempre improvisada.
Não pode! Não deve!
Um Estado existe, antes de mais, para proteger, antecipar, organizar e para responder! A ajuda pontual é importante, mas não substitui a completa ausência de estrutura.
A boa vontade não pode compensar a falta de planeamento.
O que se vive em Leiria é ao mesmo tempo, um duro retrato do abandono e uma lição de entreajuda. As famílias e as empresas mostraram uma capacidade de resposta que envergonha todo e qualquer discurso oficial sobre resiliência. Foram elas que garantiram o essencial, que mantiveram alguma ordem no meio do caos, que demonstraram que o tecido social ainda existe. Mas a solidariedade não pode servir de desculpa para a incompetência estrutural. A capacidade de improviso dos cidadãos não deve ser usada como álibi para a falta de preparação do Estado.
Não pensem que escrevo isto movido apenas pela experiência pessoal, embora ela pese, e muito. Escrevo porque é perigoso normalizar o permanente improviso, porque é irresponsável aceitar que regiões inteiras possam ficar semanas sem serviços básicos, porque é intelectualmente desonesto fingir que isto foi apenas um azar meteorológico. Não foi. Foi também, um teste. E neste teste, as instituições falharam.
Os danos materiais serão, com grande esforço, reparados. É inevitável.
Leiria resiste porque as pessoas resistem.
Leiria – O retrato de um país
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Doutorado em Administração de Empresas | Consultor e Formador | Fundador da MindsetSucesso | Investigador em Sucessão Empresarial, Liderança no Feminino e Desenvolvimento de Talento







