Existe um fogo que arde sem se ver, e este, como o de Camões, também queima, e
sempre que queima, é sentido.
E temos sentido arder, como um fogo que era já anunciado, porque já havia cheiro a
queimado antes dele queimar. E parece estar sempre certo o dia em que há de cheirar a
esturro. Seja por culpa que decidimos atribuir às estações do ano, ou a infortúnios aos quais, depois de tudo, temos decidido não atribuir qualquer culpa.
E como diz o povo, a culpa, pobrezinha, há de namorar com todos e acabar sempre
solteira, a dançar um tango ilógico, onde não são precisos dois.
Como qualquer hábito, que após adquirido, ensinado, propagado e repetido, se
dissemina, seja num humilde tasco ou num enorme casarão, lhe chama cultura, Portugal
entrou na roda, e sem ninguém querer, desenvolveu uma cultura de acidentes postos.
Um fogo posto é um fogo que foi propositadamente ateado. Um acidente posto é um
acidente anunciado, para o qual nenhuma medida para o evitar foi tomada. O que têm em
comum?
Da preguiça à avareza, podemos encher esta bolha de um monóxido, que no final nos
há de sufocar, por repetição, e mesmo assim havemos de o inalar, como quem fuma e desfruta cada trago com a vida.
Falo de vidas, que não têm cor.
E de um problema que sei que é Português, e administrativo.
Ora, o mais atento dos leitores, até com um pensamento de soslaio, certamente achará
suficiente, para poder afirmar, que eu não estou a dizer grande coisa com isso… E eu tendo a acreditar que isso é nem sentir já a dor da ferida.
E a ferida não pode passar porque parou de doer. Deve passar, por estar cicatrizada.
Mas o nosso Portugal habituou-se a viver de peito aberto e com hemorragias, e nada
lhe dói mais.
E como não doer?
Ou como não arder?
Ou como prevenir, para ver se não se vê acontecer?
Esse deverá agora ser o debate… Pelo menos até que a primeira intervenção
económica surja, ou mais um escândalo económico daqueles que já temos por costume ver
estourar e voltemos a cozinhar em brando lume, como os costumes, de costas voltadas ao
passado próximo, e a fazer vista grossa a um futuro que já parece anunciado…
“Ah e tal, mas pelo menos por cá, nunca caíram pontes sozinhas” é algo que também
não podemos dizer. Ainda hoje estamos para casar a culpa do desabamento da ponte Hintze Ribeiro. Ou para provar que um diplomata lesou o Estado, mesmo depois de ter sido detido, e a correr, como parece, ainda vamos ter que indemnizá-lo num surreal caso do lesado a ter de pagar a quem o lesou.
E o povo grita “Agarra que é ladrão”! Mas mágico como o calcanhar de outro
Sócrates, o que encantou relvados, rasga um passe que parece ter fintado a justiça, mas não o povo.
E para o que se quer que seja uma Nação com um forte Estado: o Português, são
acidentes postos que temos de saber evitar.
Mas esse cozinhado, num banho-maria em lume brando, há de estar pronto. E com a
mesma firmeza de um pudim bem feito, e se o caramelo estiver no ponto, há de desaparecer em segundos, por haver mais gula do que produção ou mais ânsia do que aquela que pode ser a satisfação.
E quem sabemos que há de ter comido todo o pudim sozinho? A culpa.
Essa que sai por aí todos os Verões, sem excepção, a pegar fogos pelas matas, e que no
Inverno provoca as inundações; a mesma que não previne, porque é para lá do que permite o orçamento; aquela que vê as coisas enferrujarem e diz que não tem culpa do tempo. Essa que fica a dançar o tango, sozinha, com um brio que encanta os tolos, os mesmos tolos a quem a chuva do Norte molha assim que chega o Outono; que vão caindo como folhas, com qualquer brisa que os entretenha. A mesma culpa que fica com os desvios a que devíamos chamar roubos.
Pois que se casem as culpas com os culpados.
O povo arranja rápido um casamenteiro.
Os descrentes já estão habituados a desacreditar do matrimónio, e estando em
desacordo, são esses que têm acertado no desfecho da cantiga
E quem questiona a canção pergunta: será que os loucos estão certos?
E recebe de resposta um Diabo na Cruz que nos apregoa que é preciso ouvi-los.
Cito Salgueiro Maia: “Existem vários Estados (…) e existe o estado a que Isto
chegou.” T
Todavia, deve o Estado provar ser digno de mais prestigiosa definição, para igual
prestígio de todos os Portugueses. É preciso desenvolver um país do qual nos devemos
orgulhar, preservar, desenvolver e fazer prosperar, como se de propriedade privada se
tratasse, fazendo frente a um atraso de desenvolvimento que nos foi imposto por um Estado Novo carregado de hábitos antigos.
Pois que não se faça destes incêndios como os que assolaram o nosso país novamente
este ano, uma espécie de desastre cultural, que todos sabemos que há de acontecer.
Que não se poupem em prevenções. Em querer saber
Que não se ache normal a corrupção, porque ela advém do mesmo foco, o deixa-andar
cultural.
E se, desta vez, deixarem a ferida ao abandono, é porque todos aprendemos a ter
prazer em sangrar.

Estudante de Filosofia







