“o mal de nós é a ignorância do bom de nós” (Gonçalo Nuno de Faria, jornalista).
Não sei o que faço aqui.
Entendamo-nos, não tenho a certeza.
De súbito, estou sentado no banco. Daqui alcanço o rio, lá em baixo. O monte verdejante, no outro lado da margem.
Em boa verdade já não vejo: cheiro e ouço o que me rodeia.
Há anos que este mundo me habita. Sei de cor o murmúrio do rio , adivinho como corre, ora em que escorre um curto fio ou em que corre farto, sei quando é o tempo da pesca ou da praia.
No banco onde me sento, no pátio de casa, absorvo – e nem sempre reconheço – o odor das flores. Um cheiro doce, familiar, íntimo.
A minha vida foi sempre de reduto . a mulher, as filhas (as melhores conquistas), a pele delas, a casa.
Toda a vida assim, a casa, a mulher, as filhas depois.
Um interregno irrompeu: marchei para África, uniforme vestido e arma aperrada. O inaudito aconteceu me: não vou falar do estio luminoso, do horizonte como nunca antes nem depois. Da pasta de sangue, do cheiro a pólvora que ainda hoje me povoa as narinas. nem dos animais, elegantes e selvagens nunca antes visto. Calo o inominável. da dor eterna que não passa.
Prefiro resumir: percebi então que o futuro não seria o que era. Sobrevivi.
De tal forma, que saio dali sem saber bem como. Depois de dezenas de cartas e aerogramas, onde derramava amores de mãe, de filho, de namorado.
Um dia tenho uma guia de marcha nas mãos: de volta para a Metrópole. Era cedo para tal, mas a ordem vinha acompanhada pela voz do comandante: matamos e morremos. Regressamos agora!
Regressamos, desiguais, já não somos quem eramos.
Fiz família e casa, habitei insularidades: sem uma revelação, um queixume: assim continuo.
Por essa altura senti me livre como nunca. Nessa altura celebrei, bebendo, festivo.
Nunca mais o repeti.
Por esses dias, li, lia em letra de forma. Li, muito e variado: li assim e assado, em letra de forma, virando páginas e páginas.
Livros de amor, de dor, de realidade e outras abstrações: sorvi uns, esqueci outros tantos (não valeram a pena).
Falavam todos de histórias mirabolantes ou reais, poemas encantatórios.
Coisas magníficas, algumas soberbas, mas, em boa verdade, sempre senti que por muito bom que seja o autor, a minha realidade, aquela de que não falo, ultrapassa o contado, o editado.
Já não leio. A visão foi capturada pela doença e eu não tateio em braille: ouço, muito. Ouço discos e rádio. E as vozes de quem está comigo.
Na rádio, espero (e consigo) escutar uma voz que me pertence. uma voz e dizer que é de alguém que também me pertence.
Nunca evito a lágrima que tantas vezes mareja os olhos entretanto inúteis.
Entretanto o corpo também já se me desajeita: a doença faz o seu caminho, roubando me capacidades. Vai sobrando a memória.
Dizem me que sou sorridente e que não me queixo: Deus queira que seja verdade!
Não esqueço o que ouvi há anos, na rádio: uma criança repetia: ” o mal de nós é a ignorância do bom de nós“, frase entrecortada com o som som do engatilhar de uma G3.
É quase Setembro e cheira a queimado. Anualmente renovados, os incêndios passeiam se.
Sou feliz, com o fim à vista, ou como é dito no disco “cantan los poetas andaluces”: o último soldado estatisticamente morto aguarda a sua vez.
Digo me presente.
Em boa verdade o mal de nós é a ignorância do bom de nós.
Boas aventuranças.
Jornalista







