No palco multiverso da Origincon, o festival dedicado à celebração da cultura pop, que se realizou este fim de semana, no pavilhão multiusos de Gondomar, O Cidadão teve a oportunidade de assistir à apresentação da última obra de António Sequeira, A Minha Casinha, feita na primeira pessoa. O filme é mais do que uma comédia dramática sobre uma família portuguesa, combinando humor e emoção, ao explorar as dinâmicas familiares quando confrontadas com mudanças inevitáveis, como a emigração do filho mais velho para estudar em Londres.
A narrativa desenvolve-se ao longo de um ano, acompanhando o impacto dessa partida nas vidas de cada membro da família, desde a crise de meia-idade do pai até ao processo de emancipação do filho.
Depois de uma receção calorosa no Festival de Cinema de Austin, onde venceu o Prémio do Público, o filme estreia agora em Portugal.
Para António Sequeira, o regresso ao país para fazer cinema foi inevitável, impulsionado pela saudade e pela necessidade de contar histórias que refletissem a realidade portuguesa. “Quando uma pessoa começa a ir para fora, quem emigra sabe um bocadinho disso, começa a sentir saudade de casa, da nossa comida, da nossa cultura”, partilha o realizador. A sua experiência académica e profissional em Londres e nos Estados Unidos moldou a sua abordagem ao cinema. Formado pela London Film School, António Sequeira viu oportunidades no estrangeiro que faltavam em Portugal, mas também enfrentou desafios: “A competição lá fora é mais feroz, mas aqui é difícil porque está tudo muito fechado.”
O realizador destaca que A Minha Casinha é um reflexo das suas próprias vivências e da sua visão para o cinema nacional. “Queria fazer um filme que tocasse as pessoas que saem de casa, fosse para a universidade ou para outra coisa, e também sobre os pais que ficam sozinhos.” A película é uma tentativa de quebrar a divisão que António observa no cinema português, entre o comercial e o de autor, criando algo que combina reflexão e entretenimento. “O filme é sobre a vida real, mas tem momentos de leveza. Não precisamos de filmes que deixem as pessoas deprimidas. Precisamos de histórias que tragam esperança.”
A comédia dramática, um género pouco explorado em Portugal, é uma escolha deliberada. António reconhece a influência das sitcoms britânicas na sua escrita, mas sublinha que o filme é profundamente português: “A nossa vida não é só drama nem só comédia. Num momento estamos a rir, no outro a chorar. Queria capturar isso.” O objetivo era oferecer ao público uma experiência genuína, mas também acessível, evitando o estigma de que “cinema português é parado”.
O cineasta reflete sobre as barreiras culturais e institucionais que dificultam a atração de audiências para o cinema nacional. “Durante muito tempo, os filmes foram feitos para uma elite intelectual, deixando de lado o público geral. Isso criou um preconceito difícil de superar. As pessoas pensam: Filme português? Vai ser aborrecido.” O realizador e a sua equipa enfrentaram esses preconceitos diretamente, promovendo A Minha Casinha como uma obra diferente. “Fomos a festivais, falámos com muita gente, insistimos que este filme não é o típico filme português.”
A receção em festivais como Austin indica que o público responde bem a histórias universais com raízes locais. A mensagem de A Minha Casinha transcende fronteiras, tocando em temas como a separação, o envelhecimento e a redescoberta das raízes. Apesar de explorar as dificuldades de adaptação e crescimento, o filme oferece momentos de alegria e esperança. “Hoje em dia, precisamos de algo que nos dê um sorriso, mesmo que seja longe de casa. No final, é sobre voltar às nossas raízes.”
António acredita que o cinema português está numa encruzilhada, mas vê potencial para um futuro mais diversificado e inovador. “Temos de criar algo que esteja no meio, que seja acessível e que tenha qualidade. Não precisamos de escolher entre autor e comercial. Podemos ter ambos.” Ele menciona a influência de realizadores portugueses como João César Monteiro e Manoel de Oliveira, mas sublinha a necessidade de novas abordagens que se interliguem com o público contemporâneo.
Com A Minha Casinha, António Sequeira espera não apenas entreter, mas também iniciar uma conversa sobre o que o cinema português pode ser. “Este filme é um começo. Queremos mostrar que podemos contar histórias relevantes, mas que também tragam algo positivo. O cinema tem de dar esperança, especialmente em tempos difíceis.”
OC/RPC/FA

Editor Adjunto/Eng. Eletrotécnico/Licenciando Gestão do Património Cultural














