Eu e o meu pai…
O meu pai sempre se manteve desatencioso de mim, enquanto criança e jovem.
Quando comecei a ser egrégio e famigerado, nunca me disse uma única palavra para me enobrecer, nobilitar ou de congratulação.
Preferia levar o jornal até ao café/cervejaria na meia-laranja (junto ao casal ventoso) e conferenciar com os amigos, enaltecendo-me!
Não me lembro de ter recebido beijos…Não me lembro ter recebido prendas…
Não esteve atento nem vigilante, quando fui abusado sexualmente pelo vizinho do rés do chão. E eu guardei esse segredo até hoje…
Um dia antes da sua morte, fui visitá-lo ao hospital e o médico avisou que assim que algum órgão vital parasse, ele morria! Morreu no dia a seguir, com 1200 de glicémia no sangue, era diabético.
Em 1983 fui pai, com apenas 21 anos!
Na altura fazia parte da OLE – Orquestra Ligeira do Exército, com o meu amigo de infância Mário Laginha. O nosso horário era ótimo, das 9h às 12h.
Eu ia buscar o meu filho ao infantário, tratava das fraldas, dos banhos e das refeições e algumas vezes preparava o jantar. Um desses dias, em que fui tocar ao Porto (Splash), conheci uma senhora mais velha nove anos do que eu e aí começou a minha danação, devassidão e estrago…Tinha o meu filho três anos. Quando o meu filho vinha passar fins de semana comigo, ficava descansado em deixá-lo com a minha companheira da altura.
Era diretor musical do Fernando Pereira e no verão chegámos a participar em vinte e nove concertos por mês… Muitos anos mais tarde, fui advertido pelo meu filho que muitas vezes, ele ficava encerrado no quarto, apenas com o copo de leite…Porque não fui avisado na altura? Teria tomado uma firme posição, obviamente! Depois o meu filho, foi conhecendo mais madrastas, pelo menos mais três!
Peço desculpas ao meu filho, por não ter estado mais atento e mais zeloso como pai…
Infelizmente, ainda não existe o manual, “como ser um bom pai…”
É algo que só se aprende com a prática diária e com os erros diários, mas tudo se supera, se o amor for mais forte!
Neste momento sou padrasto de um menino de doze anos autista não verbal e nós entende-mo-nos lindamente.
Há dois anos que o meu filho não me fala, não atende as minhas mensagens e não me deixa ver os meus netos. O que fazer? Na altura disse que ia tratar com um advogado amigo, mas foi apenas um desabafo… Assuntos do coração, não se tratam com advogados…
Agora aquele que foi o meu lídimo e axiomático pai, o meu avô Manuel Ferro. O melhor homem que conheci em toda a minha vida! Com ele aprendi a ler, a escrever e fazer contas, mesmo antes de ingressar na primária. Fui para casa dos meus avós, com apenas nove meses…Não tínhamos: Frigorífico, nem qualquer tipo de máquinas (louça, roupa…), a água era transportada em cântaros de barro, nem casa de banho (o banho era tomado num alguidar de zinco) e usava-se o penico. Sempre que o meu avô me convidava para irmos visionar televisão ao café, era um deleite e uma alacridade!
Assistíamos a: touradas, jogos de futebol, de hóquei patins e os programas “Se Bem Me Lembro” do Vitorino Nemésio. Nunca apreendi o que o meu avô conseguia captar e inferir de uma linguagem tão rebuscada e com a forte pronúncia açoriana…
Pela rua, quando alguém nos cumprimentava, o meu avô dizia: – É o Tó Manel, o meu neto e ainda é solteiro…Talvez por essa razão, eu já esteja no meu sexto casamento…
Os natais no Alentejo, deixam-me tantas saudades que nunca mais os consegui reassumir. Um dia, o meu avô chegou da rua, de lágrimas nos olhos e eu perguntei:
– Avô o que aconteceu?
– Passei junto à sede do partido comunista, fui insultado e por pouco não fui agredido!
O meu avô foi guarda republicano e salvou muitas famílias no tempo da PIDE. Quando chegavam os interrogadores ele dizia que as pessoas em causa não sabiam ler, nem andavam metidas com comunistas. Por três vezes o meu avô foi retirar corpos pendurados por uma corda, para darem a sensação que se tinham enforcado…A maior parte deles, além de nódoas negras por todo o lado, tinham os testículos desfeitos, da barbaridade e brutalidade dos interrogatórios.
Com o meu avô aprendi a respeitar os outros, ele tirava sempre o chapéu quando cumprimentava uma senhora, pôr a mão à frente da boca na altura do bocejo, prática que infelizmente se perdeu…A educação e o início da escolaridade, foram com ele que aprendi. Decorridos muitos anos, estava eu a tanger e a dedilhar num bar na estação de comboios de Montemor-o-Novo e no intervalo, um senhor muito bem posto abordou-me:
– O senhor é neto do Manuel Ferro?
– Sim, respondi eu.
– O seu avô não era um piano de parede, nem um piano de quarto de cauda, o seu avô era um piano de concerto! Devo -lhe os meus pais não terem caído nas garras da PIDE. Foi graças a ele que a minha família sobreviveu, nesses tempos tão difíceis…
Para mim, o dia 19 de março não é o dia do pai, é o dia do Manuel Ferro!
O meu avô , nasceu no dia 28 de fevereiro de 1899
Um grande beijo querido avô! Amo-te muito!
Músico/Colaborador







