Voltar ao Papel – Por Rui Rodrigues

A discussão reapareceu com força, não por acaso. A Suécia, pioneira na digitalização do ensino, decidiu recentrar o currículo nos livros físicos, na leitura, na escrita à mão e em menos tempo de ecrã nas idades iniciais, assumindo investimento público para devolver os manuais às salas e travar o impulso de pôr um tablet em cada carteira.
Muitos celebram isto como uma vitória do antigo sobre o novo. Eu não. Vejo a prudência depois do excesso. Uma correção do rumo depois de um momento de euforia e, sobretudo, vejo um sério aviso que nos mostra que a tecnologia quando sem didática, sem ética e sem evidência, não educa, apenas entretém. A própria Suécia reconheceu que exagerou na prescrição digital precoce, e que é necessário recuperar as rotinas de leitura e da escrita manual para consolidar a literacia e a atenção, especialmente no pré-escolar e no primeiro ciclo.
Como sabemos, o pêndulo social adora extremos e rapidamente transforma um ajuste sensato numa enorme cruzada contra a modernidade. Não contem comigo para isso. Eu defendo a digitalização com experiência própria e com grande convicção.
Estudei online, ensino online, investi o meu tempo e rigor na exploração de ambientes virtuais que aumentam o acesso, a flexibilidade e a qualidade, e continuo a afirmar que a educação à distância é uma ferramenta de inclusão e de mérito, quando respeita o desenho pedagógico, a avaliação exigente e a ética no uso dos dados.
O caminho certo não é apagar o ecrã, é saber quando o acendemos e para o quê.
Há um movimento internacional para restringir o uso do telemóvel dentro da escola. A UNESCO registou que, entre os anos de 2023 e 2024, dezenas de sistemas educativos reforçaram as proibições ou limitações ao uso de smartphones, não por saudosismo mas porque a evidência demonstra claramente os ganhos na atenção e na aprendizagem.
O telemóvel é uma máquina de interrupções, isso é claro. Não é um laboratório. Portanto, retirá-lo da sala não é recusar a era digital, é proteger o acto de aprender.
A Suécia está a colocar o papel onde ele é mais eficaz, a reduzir o ecrã onde distrai e empobrece, mas não aboliu a escola digital, não cancelou a ciência de dados, não renunciou as plataformas quando e onde, elas fazem sentido. Vejo estas medidas como um convite à maturidade, e a uma base analógica sólidamente baseada na infância e no
escalamento digital progressivo, quando a criança já tem capacidade para ler, já escreve, já sustém o seu foco e já sabe procurar com algum método.
Em Portugal, este assunto tem importância. Temos escolas com práticas digitais excelentes, e outras que confundem a projeção nos ecrâns com pedagogia. Temos projetos online, como a Atlântico Business School e a Universidade Aberta e múltiplas ofertas de pós-graduação à distância, que provaram o seu imenso valor em tempo de pandemia e depois dela, onde o digital, quando bem desenhado, democratiza e eleva. O meu percurso pessoal confirma isto. A via online pode ser rigorosa, exigente e profundamente transformadora, desde que seja construída com critério, com avaliação atenta, com tutoria real e humana, e com regras claras de integridade académica.
Não preciso que a Suécia, ou qualquer outro país, abdique do digital para legitimar o que defendo, precisamos que Portugal aprenda com o excesso e com a correção.
Nem tecnofobia, nem tecnolatria. O que proponho é hierarquia. Primeiro, literacia de base com uso efetivo do papel, do caderno e de professores presentes a treinar a atenção, a linguagem e o gesto. Depois, a integração digital com propósito e intenção, com dados e simulações, com escrita colaborativa, com a avaliação formativa assistida por IA, com governança da privacidade e com grande clareza ética sobre a autoria e o uso de ferramentas.
Trocar a ordem destas camadas é pedir a uma criança que aprenda a procurar antes de saber ler, que escreva antes de saber pensar, que colha antes de ter semeado.
Se a lição for bem lida, não voltaremos ao fetiche do dispositivo nem à nostalgia do tinteiro, vamos simplesmente fazer o que os bons sistemas fazem sempre que aprendem com o erro, calibram.