Visão. Ação – Por Rui Rodrigues

Visão sem ação é um sonho. Ação sem visão é um pesadelo.

É uma bela frase de inspiração para observarmos num quadro pendurado na parede?

Sim, é.

Já tive momentos em que a minha visão era cristalina. Sabia perfeitamente o que queria construir, via claramente os detalhes do impacto, conseguia imaginar o negócio de forma sólida, a estratégia colocada no papel, tudo menos a ação. Passava horas a afinar os planos, a reescrever relatórios, a preparar apresentações impecáveis à espera do “momento certo” que, no fundo, era apenas o medo mascarado de prudência.

O inevitável resultado? Nada.

Uma visão bonita, sim, mas morta. Um enorme castelo desenhado no papel, incapaz de o levantar do chão.

Mas também vivi o contrário. Quando a rotina era apenas ação. Fazer, despachar, acelerar. Horas seguidas a executar, horas de trabalho absurdas. A agenda cheia, tarefas riscadas. Produtividade em alta. A direção, em baixa.

É uma perigosa ilusão, achar que o movimento é sinónimo de progresso. Mas não é.

Admito que para mim, é uma luta constante.

Dói porque já a vivi nos dois extremos e ainda batalho contra as armadilhas que conheço de cor.

Sem visão, a ação é um círculo vicioso. Trabalhamos muito, avançamos pouco.

O corpo resiste até ao limite, a mente começa a falhar muito antes. O pior é que só percebemos quando já estamos queimados e vazios. E nada de relevante foi construído.

A frase em si, incomoda-me.

Obriga-me a olhar para trás e ver onde desperdicei o meu tempo em sonhos que nunca executei e onde gastei quantidades absurdas de energia em ações que não levaram a nada. A visão sem ação é teatro, e a ação sem visão é desperdício. Infelizmente, já fui ator, e já fui desperdício.

O problema é que estas duas armadilhas são hoje modelos de trabalho.

Há empresas a viverem eternas sessões de brainstormings que nunca saem da sala, apresentações de PowerPoint que morrem no fecho do computador. Líderes a confundir o planeamento com a liderança, relatórios com transformação. Profissionais a glorificarem o excesso de horas, a correria constante, a agenda sempre cheia. Como se estar cansado fosse credencial de valor.

Já vivi os dois, e não tenho paciência para romantizar nenhum.

Não existe glória em ser um sonhador paralisado.

Não há grandeza em ser um trabalhador exausto e sem rumo.

O que conta é a disciplina no alinhamento das duas forças.

Ter visão e agir. Agir e saber para quê. Parece óbvio, mas não é.

Aprendi, à força, que a disciplina é o músculo que sustenta este equilíbrio.

Disciplina para não ficar refém da perfeição antes da ação. Disciplina para conseguir parar quando a ação já não faz sentido. Disciplina para reconhecer que a visão e a ação não são peças soltas, mas engrenagens que fazem um motor trabalhar. Se uma falhar, o motor inevitavelmente para.

Não escrevo isto como conselho para ninguém. Escrevo como confissão.

Continuo a ter de me vigiar, a obrigar-me a não cair nesse conforto do planeamento infinito nem na ação sem destino. Continuo a batalhar contra estas duas tentações, porque sei exatamente onde me levam. E não quero voltar a perder tempo.

É simples. A visão sem ação é apenas um sonho. A ação sem visão é apenas um pesadelo. E o que realmente constrói é a coragem de pôr as duas a trabalhar lado a lado.

E essa coragem vê-se nos resultados.