Violência nas Escolas: Estamos a tapar o sol com a peneira

A notícia de um aluno brasileiro de 9 anos que teve dedos amputados numa escola de Cinfães, alegadamente porque colegas lhe fecharam a porta sobre a mão – não é apenas trágica. É um alerta. Mais um. É a prova nua e crua de que o sistema educativo português está a falhar de forma estrutural. E não adianta suavizar.

O que nos assusta não é apenas o caso em si, mas o facto de começar a parecer “normal” ouvir episódios semelhantes: agressões, humilhações, violência silenciosa que se infiltra pelos corredores onde deviam reinar a segurança. A mãe desta criança já tinha reportado à escola outros relatos de violência, segundo as notícias.

Terá a escola desvalorizado? Não quero acreditar, não pode ser possível tal indiferença.

Olhamos para estes casos com horror, mas rapidamente seguimos em frente, como se fossem exceções. O problema é que deixaram de o ser. Os relatos multiplicam-se, mudam de escola, de rosto e de idade, mas contam a mesma história: crianças que ferem outras crianças – às vezes por impulsividade, outras por imitação, outras ainda por uma incapacidade crescente de reconhecer o limite entre brincar e magoar.

De onde vem esta violência?

Acredito que parte venha do que as crianças veem e absorvem, não apenas em casa, mas nos ecrãs onde a força substitui a palavra e onde a empatia é uma raridade. Outra parte vem da correria em que vivemos, que deixa pais exaustos, professores sobrecarregados e miúdos órfãos de atenção e limites.

A Escola, que devia ser o espaço mais coletivo e mais cuidador da comunidade, tornou-se o espelho das falhas de todos nós. Quando uma criança perde dedos num “acidente” causado por colegas, não falhou só a supervisão; falhou a cultura que deveria promover respeito, autocontrolo, responsabilização e afeto. Falhou a prevenção. Falhou o olhar atento.

Falhámos todos!

E o papel do Estado? não pode responder com discursos, protocolos e intenções, mas com ações concretas. Porque é desconfortável admitir que não se trata apenas de indisciplina. Trata-se de violência. Violência real, física, emocional, silenciosa ou explosiva. Violência que já deixou de surpreender e passou a ser parte do quotidiano. Há uma espécie de anestesia social: ouvimos, lamentamos, mas já não nos espantamos.

É urgente recuperar a escola como porto seguro. Não basta impor mais regras – é preciso pôr mais gente: mais psicólogos, mais auxiliares, mais tempo para educar emocionalmente, mais espaço para aprender a viver em conjunto. Educar não é só ensinar contas e verbos; é ensinar a não ferir, a parar antes de ultrapassar o limite, a perceber que o outro importa. A perceber que a indiferença dói; não é possível continuarmos a tolerar e a desvalorizar a violência contra crianças, qualquer que seja a sua nacionalidade.

Um país mede-se também pelo cuidado e respeito que oferece às suas crianças. Quando começamos a tratar episódios tão graves como se fossem apenas mais um número, estamos a perder mais do que a segurança escolar: estamos a perder a nossa responsabilidade cívica. Coletiva.

E uma sociedade que falha em proteger os seus mais pequenos… falha tudo.

Não podemos continuar a tapar o sol com a peneira. Somos todos cúmplices destas falhas.