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Domingo, Abril 14, 2024

Velhos? Quem? – Por Rosa Fonseca

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Rosa Fonseca
Rosa Fonseca
Professora e Escritora

Um país que não sabe respeitar a nossa população mais envelhecida estará sempre na cauda do desenvolvimento social.

Enquanto eu pressentir que a iniquidade prevalece na senda dos avós, escreverei a aspereza em que vivem.
Cada vez mais a sociedade vive um tempo que não é para os mais velhos. Não estamos a saber honrar a vida dos que tanto deram. Dos que criaram os seus filhos e sustentaram o país. Muitos vivem agora no limiar da pobreza e da tristeza que os arrasta. Um desamparo profundo.

Não estamos a saber respeitar a velhice, um tempo primordial de sapiência. Falta-nos saber acolhê-la e leva-la pela mão.

Com o avançar da idade vem a perda do sentido para a vida. Vem a doença – e aqui é que são elas; o Serviço Nacional de Saúde (SNS), a quem compete zelar e tratar os cidadãos, vive dias de inversão de marcha. Quantos, na sua fragilidade, vivem em sofrimento por incapacidade de conseguirem meios para recorrer ao SNS? Quantos esperam pelo apoio de outras instituições sociais? Quantos?

O que em tempos se perspetivava vir a ser o repouso merecido –, talvez o paraíso prometido, é agora um tempo de vazio, às vezes ofensivo. De isolamento. De abandono. De indiferença. Esta é a dura realidade.

Os desencantos alastraram-se ao corpo e à alma. Os nossos pais, avós, vizinhos, encontram-se agora desajustados, quase em desalinho com um tempo que lhes deveria pertencer e acarinhar.

Vivem em situação precária e de limite, nomeadamente a saúde mental, subida de impostos e bens essenciais.

Vejamos, pois, o que nos oferecem estes novos tempos, onde todos correm em contramão deslumbrados com carreiras e poder. Mas também os que lutam diariamente para pôr o pão na mesa dos seus filhos. Tudo isto tomou proporções gigantescas e estão os nossos velhos, a sobreviverem de migalhas.

A malha social não acautelou a vida destas pessoas na sua velhice e tantas vezes lhes fecha a porta. Custa-me a aceitar que ser velho é como se não existisse: é um desabrigado, um invisível, um fora de lei.

E assim vivemos, a empurrar a vida, numa sociedade com palas nos olhos. É preciso redimensionar toda a situação e prevenir um desastre social. O hoje, é já o amanhã e o amanhã torna-se cada vez mais enevoado, incerto, ensombrado. Enquanto tal, a saúde emocional e física, conduz esta faixa etária à solidão, ao afastamento – dos amigos e da família, ao infortúnio da própria existência. À desistência de si mesmo.
Que sentido tem a vida?

Se há umas décadas os mais velhos tinham o apoio e os cuidados dos filhos, hoje, com a evolução das próprias sociedades, isso é uma miragem. O futuro tornou-se empedernido.
Apesar da esperança de vida ser hoje maior, também nos deixa um amargo de boca pela falta de apoio e melhor proteção para todos.

Não podemos compactuar com as políticas económicas e sociais, que nos incutem – porque vivenciadas diariamente nos encaminham ao medo, receios e angústias. O que estes tempos nos trazem sorrateiramente, é a privação da dignidade e o acesso a direitos fundamentais – tudo aquilo que esperámos viver na fase da reforma, em tranquilidade, num país à beira mar plantado.

E ao invés, vive-se numa indolência e solidão dentro da própria casa. Como se fossemos obrigados a fechar as portas e janelas à vida. Como se a luz se apagasse no dia em que nos apelidam de aposentados.

Acorda, Poder! Repensa, Sociedade! É urgente criar condições alternativas e estratégicas capazes de colmatar esta vida desgovernada e envergonhada em que estamos a mergulhar. Vamos criar mecanismos de interajuda, empatia e solidariedade. Vamos procurar nas instituições e nas juntas de freguesias da nossa área de residência, meios de combater a precariedade, a solidão, o abandono. Sermos com os outros e para os outros.

Este flagelo não pode, não deve interferir no direito que todos temos a uma velhice, serena e tranquila, de ternura e afetos – digna!
Ou então teremos de gritar que “Este país não é para velhos”.

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