Urbano Oliveira – ” A Música é a Arte que contém todas as artes”

Nos anos 60 tornou-se membro do Hot Clube de Portugal e em 1978 tocou e gravou com a primeira Big Band em Portugal, “Orquestra Girassol”, com arranjos e direção de José Eduardo.

Angola foi testemunha, nos anos 70, da sua passagem por grupos de música africana. Depois de ter participado no 6º Festival de Música dos Capuchos, voou até Habana, onde frequentou o “Centro de Investigacion y Desarrollo de La Música Cubana”, e com estas bases preparou uma publicação pedagógica.

Na “Drummers Collective” em Nova Iorque, aperfeiçoou os seus conhecimentos sobre “Concepções da bateria Contemporânea”, com Pete Retzlaff, Franz Katz e Michael Lauren.

Em 1996, publicou o primeiro método de bateria editado em Portugal, “Iniciação no Estudo da Bateria”, e que é distribuído gratuitamente nos workshops realizados por todo o país, com principal incidência nas localidades menos favorecidas.

“Rock Básico – Bateria Primeiros Passos”, é um CD editado em 1998 com teoria, exercícios, ritmos, e play along, um óptimo instrumento para a aprendizagem e a iniciação à bateria.

No ano seguinte saiu uma nova publicação da sua autoria “Rudimentos e Solos Preliminares para Tarola/Caixa/Snare Drum”, que foi recebida com rasgados elogios por parte de quem vive por dentro o mundo da percussão.

Com Osvaldo Pegudo (Cuba) partilhou um trabalho de workshop, onde a percussão e a bateria são apresentadas de uma forma simples e direta.

O seu mais recente trabalho “Círculo de Percussão”, especialmente recomendado para as crianças e a terceira idade, pelo seu conteúdo terapêutico.

Urbano Oliveira é professor no Conservatório de Tavira, membro da SPA-Sociedade Portuguesa de Autores, do PAS-Percussive Arts Society e da ANTA-American Music Terapy Assotiation,Inc.

Vamos conhecê-lo melhor?

O Cidadão (OC) – Quando descobriste o talento e o dom pela música?

Urbano Oliveira (UO)Um tio meu, quando eu tinha 5, 6 anos de idade, sentava-me ao colo para ouvir música na rádio e chamava-me a atenção para escutar o som dos instrumentos individualmente. Fazia-me reparar no som da trompete, do saxofone da bateria, do baixo e assim por diante. Foi deste modo que, não só aprendi a ouvir música, como a identificar, na orquestra, os sons produzidos por cada instrumento. Ainda hoje, primeiro oiço um tema musical na sua totalidade. Depois, quando posso, faço uma ou mais adições para apreciar o desempenho de cada instrumento. Só depois presto atenção à melodia, ao cantor ou cantora e no final, fico atento à letra das canções.

Quanto ao talento, só mais tarde descobri que o tinha quando comecei a ver o resultado. Principalmente quando comecei a fazer ritmos com dois paus em tudo o que era sítio e que produzisse um som agradável. Os paus, versos baquetas, eram os do algodão-doce, ou os das espingardas de folha que os tinham como projéteis, muito semelhantes ao do algodão-doce.

OC – Foi difícil o começo?

UOFoi difícil porque não havia professores de bateria nem livros disponíveis em Portugal. Nos anos 60, o primeiro que consegui comprar com dificuldade era de um baterista italiano. O primeiro compêndio, em português, com os rudimentos para bateria, só surgiu no nosso País em 1999, e foi eu que escrevi e editei.

OC– Quem te apoiou? A família, os amigos?

UOOs amigos, muito! A família apoiou, mas sofreu. Particularmente a minha avó paterna. Parece que ainda ouço a voz dela: “Ó rapaz, para lá com essa chinfrineira!” A minha mãe só me bateu uma ocasião por causa do barulho, todas as outras vezes podem ser consideradas tentativas de homicídio.

OC – Com quem tiveste mais prazer em tocar, ou gravar?

UOO pianista Shegundo Galarza foi a pessoa que mais prazer me deu, não só em tocar, como em termos de relação, convívio e amizade. Foram cerca de 25 anos intensos e muito divertidos. Com o Fernando Tordo foi uma excelente experiência. Com a banda “Petrus Castrus” foi outro momento enriquecedor, gravei com eles o “Ascensão e Queda”, um álbum de referência no rock sinfónico e com a “Orquestra Girassol”, do Hot Clube de Portugal, com a qual gravei o primeiro disco editado por uma Big Band em Portugal. Porém tive imenso prazer com muitos outros.

OC– Já gravaste algum disco em teu nome?

UOSim. Um CD com o título “Fragrâncias” e outro com o título “Dito e Feito”, além de um vídeo, em VHS, com o título “Percussão para Todos”.

OC – Qual a tua opinião, sobre os instrumentos serem considerados artigos de luxo?

UO Se o acabamento de um saxofone, ou outro instrumento musical, tiver as chaves cravadas com diamantes, ou se uma picareta, ou alicate, for construído com pegas de ouro e ornamentado com pedras preciosas, é justo que passe a ser denominado um instrumento de luxo. Agora, meros instrumentos de trabalho, estejam ou não vocacionados para a arte, não me parece justo, correto, nem decente. A meu ver, não há bom senso na aplicação de um imposto elevado nestes artigos.

OC – A ministra da cultura em Espanha nivelou o IVA do disco e do livro. Em Portugal, o livro 12%, e o disco 23%.

UONós somos assim. Uma parte do povo ainda tem mentalidade de conquistador; explorador; sacador impiedoso. Mas de um modo geral os estados e as grandes empresas são terríveis a tirar, hábil e impunemente, o dinheiro às pessoas.

OC – Razão pela qual, alguns ou mesmo muitos, estão a editar livros com um CD no seu interior…Qual a tua opinião?

UO Quem gosta de fazer e deixar feito tem que ser criativo perante a agressividade dos impostos, a insensibilidade e a indiferença de quem devia pensar com profundidade sobre o que é a cultura, para que serve e quais são os benefícios sociais e políticos para todos. Penso que os ministros deviam ser mais cultos, competentes e capazes. Não só no que à arte diz respeito.

OC – O que achas da formação e do ensino musical em Portugal e a importância das bandas filarmónicas em todo esse processo?

UO A formação musical melhorou imenso. Nas escolas, ainda há um longo percurso por fazer. Mas atualmente já temos melhores condições e resultados. Só nunca aceitei bem o uso da flauta de bisel para iniciar o estudo da música nas escolas. As crianças deviam todas começar pela percussão, e não com um instrumento melódico que requer o uso de dez dedos, que exige controlo do sopro, técnica de respiração e articulação. É um instrumento difícil e desmotivador para muitos jovens. Tive essa experiência com quatro filhos e dois netos.

O meu enorme aplauso às bandas filarmónicas e a todos os indivíduos que, muitas vezes, de forma generosa, se dedicam a mantê-las e a melhorá-las, ensinando crianças e adultos.

OC – A rádio e a televisão apoiam a comunidade musical?

UO É um mundo complexo, um pouco hermético e difícil de entender. Podiam fazer muito mais e melhor pela música, os músicos e as bandas portuguesas de todos os géneros musicais.

OC – Um músico termina o conservatório ou um curso superior de música em Portugal e onde irá tocar? Há festivais suficientes das diversas correntes musicais? Os portugueses têm acesso, para se poderem apresentar nesses festivais? E nas orquestras, temos lugar, ou os lugares estão preenchidos por músicos europeus…

UOA meu ver, aí, funciona a lei da oferta e da procura, bem como a aptidão altamente qualificada. É preciso avaliar a competência e o mercado, caso contrário não conseguimos vender o “produto”. Não me parece justo pensar em subsídios para manter músicos sem trabalho. Há exceções, claro. Por exemplo, um músico que trabalhe na orquestra de um teatro público ou outra entidade, claro que tem todo o direito a um subsídio se ficar sem trabalho, tal como qualquer outro trabalhador. Por outro lado, os músicos, para serem bem-sucedidos, também têm que ter a capacidade para emocionar as pessoas e serem capazes de transmitir o que sentem através da interpretação. O público, de um modo geral, não tem formação musical. O alto nível de execução técnica é importante, mas por si só, não transmitem nada se não houver uma componente emocional que estabeleça uma conexão com as pessoas. A audiência quer ouvir e sentir o que o artista tem para comunicar. Isto faz toda a diferença no resultado e no sucesso. Em termos comerciais, é preciso saber vender. Parece-me que estamos num bom patamar no que se refere a festivais. O acesso dos portugueses a esses festivais é um assunto sensível. Quem organiza quer encher o festival, por isso procura o que o público mais gosta. Aqui, entra a complexidade da situação, se os músicos ou as bandas portuguesas não são divulgados, o público desconhece os seus trabalhos, assim, procura os que são mais conhecidos e atraem público, que habitualmente são estrangeiros.

OC – Como estamos, de circuitos de bares de música ao vivo ? Ou um músico, termina um curso superior, para se limitar a lecionar…

UO É o que muitas vezes acontece por escassez de procura ou pouca aptidão para tocar ao vivo, a solo ou em grupo. É por isso também que muitos optam por lecionar, ou até desistir.

OC – Durante muitos anos as companhias de teatro tiveram subsídios atrás de subsídios e os músicos? Ou pertencem a uma orquestra, que lhes garanta um salário ao fim de cada mês, ou então ficam pelo incerto…Como fazes para viver ou sobreviver da música?

UO Os subsídios para o teatro e o cinema é uma história longa e complicada cheia de contendas e oportunismos. Do pouco que sei, por vezes, parece mais um saco de gatos. Existem muitos artistas sem serem músicos. Não vejo como seria possível subsidiar toda a gente. Vivemos numa economia de mercado. Estudar música é um investimento e como em todos os investimentos, existem riscos. Temos que aprender a lidar com o que não corre bem. Se não conseguirmos sustento através da música, temos inevitavelmente que procurar formação para encontrar outras oportunidades de emprego.

OC – Se fosses ministro da cultura, quais as medidas que tomarias em relação à cultura e particularmente, à música?

UOProcuraria recuperar mais o património imobiliário histórico em projetos de reabilitação.

Tornar financeiramente acessível o acesso a palácio e museus cuja exploração de alguns foi concedida a empresas particulares que se lambuzam com os valores obscenos dos ingressos.

Colocaria mais e melhor informação nos diferentes locais de visita: museus, castelos, conventos, palácios, mosteiros onde, em muitos deles, a informação histórica é escassa ou inexistente.

Procuraria dar uso intenso aos imensos coretos com apresentações periódicas e regulares, principalmente de filarmónicas.

OC – Qual a pergunta que ficou por fazer?

UOTalvez: Que valor tem a música para ti ?

UOEu respondo.

A musicalidade da vida contém silêncios, vibrações, sons, ritmos, harmonias que nem sempre reparamos. É um pouco como o ar. Só nos apercebemos que respiramos quando sentimos falta dele. A música é uma ferramenta poderosa no plano cognitivo, da memória, da concentração, do controlo emocional e da expressão criativa, e, por outro lado, é importante para os adultos na educação das crianças na esfera dos valores, da ética, das regras, dos princípios, além de contribuir, de forma divertida, para disciplinar comportamentos. A música é vida. Para mim, a Arte que contém todas as artes.

OC – Continuamos no orçamento estatal com 2% para a cultura…

UOEm compensação assustadora, estamos com a espada de Dâmocles, com a meta de 5% para defesa militar.