Um Governo com um cheque em branco e mão leve – Por Amadeu Ricardo

Sinto-me completamente lixado. F…o, mesmo. E peço desculpa se o palavrão incomoda, mas há alturas em que o português escorre da boca como o desespero de quem percebe que está a ser governado por um teatro de marionetas sem fio, sem voz e sem vergonha.

O que se passa com Portugal na NATO — e não só — é o espelho perfeito daquilo em que se tornou esta coisa que ainda fingimos chamar democracia: uma encenação permanente, onde os cidadãos são figurantes sem falas, e os governantes personagens que improvisam com base em guiões estrangeiros.
Na última cimeira da NATO, anunciou-se com “pompa” que os países membros deverão gastar 5% do PIB em defesa até 2035. Portugal, claro, não hesitou. Assinou por baixo. Disse que sim com um entusiasmo servil. Para os defensores são 13 mil milhões por ano. Não , Não houve debate. Não houve consulta. Não houve sequer uma mísera tentativa de fingir que havia alternativa. Um compromisso de milhares de milhões de euros, assumido como se o governo tivesse recebido um mandato sagrado para decidir sozinho o que é prioritário para este país — quando, na verdade, ninguém lhes deu tal poder.

Digam-me: onde é que está a legitimidade para isto?
Onde para a Presidência da República?

Em que programa eleitoral é que apareceu esta linha orçamental? Quando é que os portugueses votaram para cortar na saúde, na habitação ou na educação, só para agradar à máquina de guerra americana?

A resposta é simples: nunca. Porque o que temos não é um governo. É uma agência de gestão do consentimento alheio, ao serviço dos interesses que não são nossos. Portugal tornou-se o bom aluno que se senta na última fila, calado, com medo de reprovar no exame da “geopolítica adulta”. Mas os adultos, quando muito, são os outros. Nós ficamos com a conta. E com o silêncio.

Do outro lado da fronteira, Pedro Sánchez — com todos os defeitos que se lhe conhecem e não são poucos — teve a coragem de dizer que não. Que o bem-estar do povo espanhol não será sacrificado para cumprir com as quotas absurdas da despesa militar. Compromete-se com o necessário, com o que é estratégico, com o realista. Portugal, por sua vez, alinha no automatismo. Ajoelha. Sorri. Cala-se. E assina o cheque.

E não é só este cheque. É a colecção de cheques em branco que os sucessivos governos portugueses têm passado, convencidos de que, uma vez eleitos, são os donos do país. Não prestam contas. Não ouvem. Não consultam. Governam como se a soberania fosse um cargo vitalício e a democracia uma obrigação incômoda que se despacha na noite das eleições.

Isto não é governar. Isto é uma apropriação do Estado. É transformar a democracia numa farsa burocrática onde quem manda não tem de explicar nada, nem que pedir autorização para coisa nenhuma. Um poder que se autojustifica com frases ocas sobre “valores europeus”, “solidariedade atlântica” e “interesses estratégicos” — chavões reciclados que servem de maquilhagem para uma verdade mais crua: estamos a ser governados por quem não governa. Por quem ocupa o lugar, mas não o exerce. Por quem existe para agradar lá fora, e não para proteger cá dentro.

A pergunta impõe-se: até quando?

Até quando vamos tolerar governos que confundem mandato democrático com um passe livre? Que tomam decisões irreversíveis, pesadas, estruturantes, como se estivessem apenas a aprovar um orçamento de “catering” para a próxima cimeira? Até quando é que o povo português vai continuar a aceitar que a sua vida seja hipotecada em nome de alianças que servem tudo menos o interesse nacional?

E, enquanto isso, lá fora, os Estados Unidos são comandados como se fossem um programa de televisão. Donald Trump — ou quem vier a seguir — governa com instinto e ego, como se cada decisão da política externa fosse um episódio de um qualquer “reality show”. Um dia impõe tarifas, no outro dia recua, depois ameaça, depois aperta as mãos — tudo à procura de aplausos, manchetes, e, claro, o Nobel da Paz. Porque nada como bombardear o Médio Oriente com um sorriso cínico para parecer pacificador.

E nós? Nós batemos palmas. Dizemos que sim. E pagamos a conta.

Não é exagero. É revolta. Porque esta democracia — ou o que dela resta — está a ser esvaziada. Governada por uma “elite” de gestores de carreira, e maus, recicladores de “soundbites” e especialistas em “posicionamento institucional”. Não há visão. Não há coragem. Não há país. Há apenas obediência, conveniência e subserviência. Tudo embrulhado num discurso polido, europeu, “responsável”,
E falso.

Chamam-lhe liderança. Eu chamo-lhe fraude.

ATÉ QUANDO?
ACORDA !