Tudo Importa. Portanto, nada importa

Baralhados?

Há uma pergunta que tem o mau hábito de aparecer nos momentos menos
convenientes: entre uma reunião e um café, no fim de um artigo que parecia fechado,
ou enquanto se observa, com aparente distração, a vida dos outros a acontecer. A
pergunta é simples, quase ingénua, o que é que realmente importa?
A simplicidade é enganadora. Porque, em teoria, já decidimos. Vivemos como se
soubéssemos a resposta.

Durante muito tempo, a resposta mais prática foi o dinheiro. Não por ganância, uma
palavra que fica sempre melhor nos discursos do que na vida real…, mas por eficiência.
O dinheiro resolve problemas, abre portas, compra tempo, ou pelo menos a ilusão dele.
É difícil argumentar contra algo tão funcional. Ainda assim, há um detalhe curioso:
quanto mais se acumula, mais sofisticadas se tornam as necessidades. O essencial, ao
que parece, é um conceito elástico.

Logo ao lado, encontramos a posição social. Um sistema mais antigo, mas ainda
bastante em forma. Funciona como um grande palco onde todos desempenham papéis
com enorme convicção. Há títulos, lugares, reconhecimentos, e uma plateia atenta, eu
mesmo sofri disso, ainda que frequentemente distraído com o meu próprio desempenho.
O curioso é que ninguém quer admitir que está a representar, o que torna a peça
particularmente convincente.

Depois temos o conhecimento, essa forma elegante de poder. À primeira vista, parece
a escolha mais nobre: saber mais, compreender melhor, ver além do imediato. Mas o
conhecimento tem um efeito colateral pouco publicitado, substitui certezas por
perguntas. Como alguém disse, “sou meio burro “. E, a certa altura, o indivíduo
informado encontra-se numa posição desconfortável: sabe o suficiente para duvidar de
quase tudo, mas não o suficiente para descansar em alguma conclusão sólida. É um
progresso peculiar.
Por fim, surge a ideia de meta. Objetivos claros, mensuráveis, tangíveis. A linha de
chegada, esse conceito tranquilizador. Trabalha-se, esforça-se, alcança-se. E, por um
breve momento, há silêncio. Depois, quase impercetivelmente, a linha desloca-se. Não
por malícia, mas por natureza. A meta seguinte já está definida antes mesmo de se
celebrar a anterior. É um sistema admiravelmente eficiente em manter todos em
movimento.

Nada disto é propriamente errado. O dinheiro tem utilidade, a posição organiza, o
conhecimento ilumina e os objetivos dão direção. O problema começa quando qualquer
um destes elementos é promovido a resposta final. Quando deixam de ser meios e
passam a ser justificações.

Talvez seja por isso que a pergunta persiste. Não porque não haja respostas, mas
porque há demasiadas, e quase todas funcionam, até deixarem de funcionar.
No meio de tudo isto, há momentos mais difíceis de quantificar. Conversas que não
produzem resultados, mas permanecem. Pequenos gestos que não alteram estatísticas,
mas alteram dias. Instantes onde não há nada a provar, nem ninguém a impressionar.
Curiosamente, são também os momentos menos úteis, no sentido mais técnico da
palavra.

O que é que realmente importa? A resposta mais honesta talvez seja desconfortável:
importa aquilo que continua a fazer sentido quando deixamos de precisar de justificar
as nossas escolhas.

O problema é que, quando lá chegamos, já ninguém está particularmente interessado
em saber a resposta. E, talvez por isso, ela seja finalmente relevante.