Tomás Pimentel – “Acho um absurdo os instrumentos serem considerados artigos de luxo…”

Tomás Pimentel, nasceu em Lisboa em 1960 e é uma figura incontornável do jazz e da música popular portuguesa.
Com mais de quatro décadas de atividade como trompetista, compositor e professor, é oriundo de uma família de músicos; iniciou os estudos musicais ao piano, ainda em criança, tendo posteriormente optado pelo trompete como instrumento principal. Estudou Educação Musical e Composição na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa, onde teve como professores José Augusto Carneiro (trompete), Maria de Lurdes Martins, Christopher Bochmann e Elisa Lamas (composição).
Complementou a sua formação em jazz no Hot Clube de Portugal, tendo frequentado workshops com músicos com Clark Terry e Terence Blanchard.
Ao longo da sua carreira, colaborou com diversos artistas de renome, como: José Afonso, José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Jorge Palma, Rodrigo Leão, Pedro Abrunhosa, Tito Paris e Vitorino.
Participou também em bandas residentes de programas de televisão e em projetos como o Decateto de Mário Laginha e a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal. Em 1991, formou o seu próprio sexteto, onde procura uma sonoridade orquestral que valoriza a improvisação e o discurso individual dos músicos.
O grupo tem-se apresentado em diversos festivais, como o Jazz no Parque, e conta com músicos como: Ricardo Toscano, Edgar Caramelo, António Pinto, João Paulo Esteves da Silva, Mário Franco e Alexandre Frazão.
Apesar de viver exclusivamente da prática musical, tanto como intérprete quanto como professor, Tomás Pimentel gravou apenas um disco como solista, editado em 1994. É conhecido pela sua paixão pelo fliscorne, instrumento que considera a sua “voz” e com o qual mais se identifica.
Além da sua atividade como músico, é também professor, tendo lecionado na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal nos anos 80. É um defensor do ensino musical e tem acompanhado a evolução do panorama musical português, destacando a melhoria na formação dos músicos e o crescimento do jazz em Portugal.
O Cidadão (OC) – Quando descobriste o talento e o dom pela música?
Tomás Pimentel (TP) – Descobri que tinha algum jeito para a música comparativamente com alguns amigos que também gostavam de tocar e com quem tive as primeiras experiências de tentar montar algum repertório em que a improvisação pudesse ter espaço de intervenção. Esse grupo chamava-se a certa altura Kuala Soth e integrava, entre outros, João Courinha no saxofone, Túlio Militão na percussão, Ju no clarinete, Joaquim Pedro Jacobetty no piano e Rui Castelo no contrabaixo.
OC – Foi difícil o começo?
TP – Não senti que tenha sido difícil. As coisas aconteciam naturalmente e sem muita consciência profissional na altura.
OC– Quem te apoiou? A família, os amigos?
TP– Quem me apoiou na altura foram exatamente os colegas do grupo. Apoiávamo-nos mutuamente.
OC – Com quem tiveste mais prazer em tocar, ou gravar?
TP- É difícil dizer com quem tive mais ou menos prazer em tocar ou gravar. Foram tantas as situações em que tive prazer a tocar ou gravar com tantos músicos e arranjadores e cantores. Posso destacar as atuações e gravações com o Sexteto de Jazz de Lisboa , com o meu Septeto, com o Sérgio Godinho, com o Zé Mário Branco, com o Vitorino, com o Zeca Afonso, com o Tito Paris, com a Brigada Victor Jara, com o Fausto , com a Orquestra de Jazz do Hot Clube, são tantos que não consigo lembrar-me de todos, que me desculpem os não mencionados.
OC– Já gravaste algum disco em teu nome?
TP- Sim. Gravei o disco “ Descolagem” com o meu sexteto.
OC – Qual a tua opinião sobre os instrumentos serem considerados artigos de luxo?
TP – Acho um absurdo….
OC – A ministra da cultura em Espanha nivelou o IVA do disco e do livro. Em Portugal, o livro 12%, e o disco 23%. Razão pela qual, alguns ou mesmo muitos, estão a editar livros com um CD no seu interior…Qual a tua opinião?
TP – Acho que deveria de ter um IVA mais baixo e igual à da edição literária.
OC – O que achas da formação e do ensino musical em Portugal, e a importância das bandas filarmónicas em todo esse processo?
TP – Acho que durante muitos anos a importância das bandas filarmónicas na formação e no ensino da música em Portugal foi relevante. Hoje em dia essa formação é muito mais relevante noutras instituições . Continuam a ser, no entanto, muito importantes na divulgação e colocação de músicos que obtêm a sua formação musical em outra escolas,nomeadamente escolas de formação superior.

OC – A rádio e a televisão apoiam a comunidade musical?
TP – Penso que a rádio talvez apoie a comunidade musical em certos aspetos e em certos programas, nomeadamente a Antena 2 e acho que a televisão pouco apoia a comunidade musical. Não considero que os programas de entretenimento da televisão generalista apoie a comunidade musical, já que não considero que as “aberrações sonoras” e de mau gosto em termos de mensagem poética ou literária façam parte de algo a que se possa chamar de Música.
OC– Um músico termina o conservatório ou um curso superior de música em Portugal e onde irá tocar? Há festivais suficientes das diversas correntes musicais? Os portugueses têm acesso, para se poderem apresentar nesses festivais? E nas orquestras temos lugar, ou os lugares estão preenchidos por músicos europeus…
TP –Hoje em dia estamos no mesmo patamar de qualquer músico a nível europeu ou universal. Há variadíssimos exemplos.
OC– Como estamos, de circuitos de bares de música ao vivo ? Ou um músico, termina um curso superior, para se limitar a lecionar…
TP –Há de tudo. Muitos bares onde se pode fazer todo o tipo de música. A qualidade está cada vez melhor. Não acho que o ensino seja “limitar” um músico.
OC – Durante muitos anos as companhias de teatro tiveram subsídios atrás de subsídios e os músicos? Ou pertencem a uma orquestra, que lhes garanta um salário ao fim de cada mês, ou então ficam pelo incerto…Como fazes para viver ou sobreviver da música?
TP -No meu caso fiz parte da Banda da Marinha e tive a sorte de poder fazer parte de muitos projetos e grupos que tinham bastante sucesso e trabalho bem pago para os músicos.
OC- Se fosses ministro da cultura, quais as medidas que tomarias em relação à cultura e, particularmente, à música?
TP – Não me imagino ministro da cultura nem faço ideia de que medidas tomaria….
OC– Qual a pergunta que ficou por fazer?
TP – Há sempre imensas perguntas por fazer. Não sou eu que as saberia fazer. Deixo para quem as queira fazer.
Continuamos, no orçamento estatal, com 2% para a cultura…
Eça de Queiroz, em diversas obras, criticava a falta de cultura e o desprezo pela arte em Portugal. Ele argumentava que um país sem uma base cultural forte e uma preocupação com as artes era um país com pouco futuro. A sua visão era pessimista, e ele considerava que a ausência de cultura contribuía para a decadência social e política