Termómetro de Competitividade

Os dados acumulados nos últimos dois anos sobre o empreendedorismo feminino mostram com clareza que estamos perante um indicador estrutural de maturidade competitiva e não perante apenas dados ligados à inclusão.

Em Portugal, segundo dados recentes do ecossistema nacional de startups divulgados em 2025, existem mais de cinco mil startups ativas, responsáveis por cerca de vinte e oito mil postos de trabalho e por um volume de negócios agregado superior a 2,8 mil milhões de euros. Apenas cerca de 14 por cento destas startups foram fundadas por mulheres. Esta discrepância não é um problema de representação, mas um problema de eficiência de mercado.

Se mais de 60 por cento das mulheres portuguesas afirmam, de acordo com o mais recente estudo da Mastercard publicado este ano, que consideram abrir o seu próprio negócio, então a diferença entre a simples intenção em avançar e a materialização destes desejos, revela uma fricção no sistema económico que impede a plena conversão de capital humano qualificado em produção efetiva de riqueza.

Quando o sistema não converte este talento que tem à sua disponibilidade em atividade económica, não estamos perante uma questão ideológica. Estamos perante o subaproveitamento de recursos.

Vamos pensar um pouco. As economias que diversificam os seus centros de decisão apresentam maior capacidade de adaptação em contextos de volatilidade, uma maior prudência financeira e menor exposição ao ciclos especulativos agressivos. Isto é corroborado por estudos europeus que indicam que as empresas lideradas por mulheres tendem a apresentar níveis de endividamento mais controlados e uma gestão de risco mais conservadora. Estes são fatores que naturalmente, aumentam a resiliência durante os períodos de instabilidade macroeconómica, como o que atravessamos atualmente.

A Europa está a crescer de forma moderada e Portugal dependente da evolução tecnológica das suas exportações e da incorporação de conhecimento especializado nos seus bens e serviços, portanto, a expansão do empreendedorismo feminino deve ser lida como um sinal de sofisticação do tecido produtivo. Mas, se apenas uns míseros 12 por cento do capital de risco europeu continuam a ser canalizados para empresas fundadas por mulheres, então o problema não está na capacidade empreendedora feminina. O problema está na arquitetura de financiamento que ainda opera com enviesamentos.

A maturidade económica de um país mede-se pela sua capacidade de mobilizar todo o seu potencial produtivo. Não metade. Não parcialmente. Todo!

Quando mulheres fundam empresas em setores digitais, quando lideram projetos de exportação baseados em serviços especializados, quando estruturam negócios com grande rigor, disciplina financeira e visão estratégica de médio prazo, isto é competitividade sistémica.

Portugal enfrenta desafios de produtividade, sabemos perfeitamente. Enfrentamos também problemas de intensidade tecnológica e na diversificação de mercados externos, sobretudo num momento em que as exportações estão a ganhar tração dentro da União Europeia e procuram crescente afirmação nas economias asiáticas. Perante isto, ignorar o crescente contributo das empreendedoras portuguesas é desperdiçar uma vantagem comparativa interna que outros países já compreenderam como sendo estratégica.

O empreendedorismo feminino não é um tema de igualdade. Tornou-se um indicador de eficiência na alocação do capital humano e um barómetro da capacidade do sistema económico evoluir para modelos mais sofisticados, mais sustentáveis e menos dependentes de ciclos conjunturais.

Será que Portugal pretende competir num espaço económico avançado ao dar-se ao luxo em continuar a desperdiçar talento devido a inércia estrutural?
A resposta, se formos honestos, é não.

Assim, quando Portugal decidir mobilizar os seus recursos para potenciar plenamente o talento feminino, vai certamente inaugurar um futuro mais inteligente, mais forte e estruturalmente imparável.