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Domingo, Julho 14, 2024

Tempos de folia e de agonia: a Luta Contra o Tráfico Humano nos Festivais

Em Portugal no ano de 2022 segundo o relatório da APAV, 23 casos foram reportados por possível trafico humano. E neste ano de 2023 na ocorrência da Jornada Mundial da Juventude 4 casos foram recebidos pela APAV, estando os mesmos sob suspeita do mesmo crime.

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Pedro Nogueira Simões
Pedro Nogueira Simões
Advogado, Psicólogo e Investigador Universitário

No meio dos ritmos pulsantes e das cores vibrantes que definem os festivais e grandes eventos, existe uma malevolência oculta – o espectro do tráfico humano.

Como escrito no inferno de Dante, onde “abandonai toda a esperança, vós que entrais aqui”, o tráfico humano lança uma sombra sobre estas celebrações, aprisionando as suas vítimas num reino de pesadelo. Para compreender este problema insidioso, é necessário explorar como esta escravidão moderna prospera no meio da alegria.

A ignorância muitas vezes prevalece entre os jovens que, imersos na festa, não se apercebem do mercado de tráfico humano que ocorre. As grandes multidões são oportunidades e terreno onde ocorre a exploração, pois é mais fácil os elementos envolvidos ocultarem as suas operações quando as pessoas menos esperam.

A sabedoria de Hannah Arendt ecoa quando ela afirmou que “a maioria do mal é cometida por pessoas que nunca decidiram ser boas ou más”.

As vítimas frequentemente caem nas armadilhas dos traficantes, enredadas num mundo de trabalho forçado ou exploração sexual na procura de dignidade e trabalho mais decente. A natureza transitória dos festivais, marcada por acomodações temporárias, agrava a sua vulnerabilidade, deixando-as sem uma rede de apoio estável, contactos e/ou meios de fuga quando ocorrem estas situações. Os traficantes aproveitam a instabilidade dos próprios momentos festivos com a instabilidade emocional dos indivíduos que a frequentam.

Em Portugal no ano de 2022 segundo o relatório da APAV, 23 casos foram reportados por possível trafico humano. E neste ano de 2023 na ocorrência da Jornada Mundial da Juventude 4 casos foram recebidos pela APAV, estando os mesmos sob suspeita do mesmo crime.

Parecem números simbólicos, mas entendemos que, tal como na violência doméstica, as vítimas encontram-se em situações de submissão completa e desamparo, também nestes casos as mesmas se encontram nas mãos do tráfico e das suas rotas.

Muitos destes não sabem falar a língua no sítio onde estão, outros tem medo de confrontarem-se com a realidade de estarem sozinhos e perdidos e não sabem como pedir ajuda, proporcionado toda este ambiente um meio propicio à continuação de tais cenários.

Assim, depreende-se que, onde há o encontro de pessoas diversas culturas e nacionalidades, sem compromissos, garantindo parte do anonimato próprio desses grandes eventos, podem ser espaços onde se verifica a exploração de pessoas resultante do tráfico de pessoas, através das mais variadas formas, onde tais meios são vistos por quem perpetua tais ações, como uma oportunidade a exploração.

No entanto, em termos científicos não se pode afirmar que tais eventos aumentam significativamente o número de tais ações condenáveis em termos legislativos, por falta de provas que comprovam tais testemunhos, porém, existe sempre uma preocupação dos atuantes da área sobre o tema, para evitar que tais situações se agravem.

Como forma de prevenção, são realizáveis campanhas com o propósito específico para a problemática em questão, antes e durante os eventos. E tais ações são estratégicas, pois o número de pessoas envolvidas em tais cenários é elevado, levando as mesmas à consciencialização do respetivo fenómeno.

O trabalho em equipa entre as partes interessadas, a formação abrangente e as medidas de segurança proativas são essenciais. Leis mais rigorosas e claras, com penalizações mais severas para os traficantes, devem ser promulgadas, servindo como um impedimento para esses criminosos.

Simultaneamente, devemos priorizar a prestação de apoio e recursos para as vítimas, ajudando-as a libertarem-se de seus captores e a recuperarem as suas vidas.

Para isto é preciso haver uma reflexão das respostas sociais existentes e averiguar o que realmente falta desenvolver para ajudar na fuga e retoma da vida destas pessoas.

Pignatelli
Este artigo teve a colaboração de Catarina Pignatelli – (Psicóloga e Investigadora) Foto: D.R
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