“Sussurro” de Cattelan coloca Serralves em estado de provocação


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A curadoria de Philippe Vergne, diretor do museu, a retrospetiva “Sussurro” assume-se como um diálogo intenso entre as obras, a Casa Art déco dos anos 30 e a paisagem envolvente.
O título remete para a ideia de um sussurro — um momento de transição, aquilo que fica entre dois estados: infância e o adulto, vida e a morte, o riso e o choro, o passado e o presente. Esse instante fugidio e ambíguo é um terreno fértil na poética visual de Cattelan.

Peças emblemáticas em exibição

A exposição reúne 26 trabalhos icónicos, muitos deles pela primeira vez em Portugal:
“Comedian”: a banana presa à parede com fita adesiva — um símbolo pop que questiona o valor e o papel da arte no quotidiano, que incentiva o público a posicionar-se face ao objeto.
“Daddy, Daddy”: um boneco Pinóquio aparentemente submerso numa fonte — uma reflexão tragicómica sobre mentira, infância e sacralidade.
“La Nona ora”: o Papa João Paulo II atingido por um meteorito — um choque entre o sagrado e o absurdo.
Obras como “Him”, “L.O.V.E.”, “Breath”, entre outras, completam este alinhamento singular.

A polémica da banana

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A obra “Comedian” causou um verdadeiro frenesim mediático e artístico aquando da sua primeira apresentação em Miami, em 2019. A banana colada à parede com fita adesiva foi vendida por centenas de milhares de dólares, gerando um debate aceso entre os críticos, colecionadores e o público em geral. Para uns, trata-se de um golpe de génio que expõe os absurdos do mercado da arte contemporânea; para outros, era simplesmente uma provocação vazia. A polémica intensificou-se quando um artista performativo retirou a banana da parede e a comeu, declarando esse acto como parte integrante da obra. Esta tensão entre o efémero e o valioso, entre o gesto e a instituição, continua a alimentar discussões e é parte essencial da força disruptiva da peça.

Curadoria e encenação

As obras não estão simplesmente dispostas: são estrategicamente encenadas, com um posicionamento que envolve o visitante e reinterpreta o espaço expositivo, num jogo subtil entre o cenário e a audiência.

Porquê visitar “Sussurro”?

É uma oportunidade rara de vivenciar um olhar crítico e irreverente sobre a História, a religiosidade, o poder, o riso e o sofrimento.
A integração entre a Casa Art déco e o parque permitem uma experiência imersiva, onde arte e a paisagem se encontram mutuamente em cada obra.
A seleção das obras, emblemáticas no percurso de Cattelan, promove uma reflexão sobre os limites e os paradoxos da arte contemporânea.

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Em resumo

“Sussurro” oferece mais do que obras chocantes — convida a um sussurro interior, um confronto suave porém incisivo com a História, a crença, o poder e a fragilidade humana. Em Serralves, cada escultura, instalação ou objeto encenado é uma chave que nos convoca a repensar o nosso lugar como espectadores e protagonistas do agora.

Se procura uma experiência que lhe faça questionar e sentir, esta exposição de Cattelan é um ponto de encontro com o contemporâneo que ecoa no silêncio do sussurro.