O cheiro da canela e pão acabado de cozer espalhava-se pela cozinha, misturando-se com o aroma da sopa de legumes e o bacalhau que ferviam no fogão.
À mesa, a família reunia-se, cada um encontrando o seu lugar; às vezes de encontrão em encontrão, mas sempre com um sorriso escancarado.
– Quem quer o pão mais crocante? – perguntou a mãe, partindo uma fatia com cuidado. – Eu! – gritaram quase em uníssono os filhos.
Eram sempre assim os natais na casa da Rua da Nossa Senhora da Alegria.
O pai levantou a colher de sopa e fez uma careta exagerada: – Cuidado, esta sopa tem poderes mágicos. Quem comer demais, começa a falar sem parar com a vaquinha do presépio!
Os mais pequenos riram, enquanto a avó abanava a cabeça, rindo também, e acrescentava: – Pois então vamos ver quem consegue terminar primeiro sem soltar uma gargalhada!
Entre colheradas e histórias entrelaçadas: o mais novo contava como o gato tinha tentado subir à árvore de fitas coloridas e ficado preso; a menina explicava como tinha perdido uma meia e encontrado outra na mochila do irmão; e o pai lembrava uma anedota antiga que fazia todos soluçar de tanto rir, sobre o peru de Natal.
Quando a sobremesa chegou – rabanadas douradas feitas pela mãe, ainda quentes – ninguém conseguiu esperar: mãos avançaram sobre o prato em plena algazarra.
Apesar da mesa pequena, e a sala pequena, o calor humano era imenso. Entre risos e gritos, todos perceberam que aquele caos era, na verdade, a melhor parte da família: os olhares cruzavam-se, os gestos completavam-se, e cada riso era uma corrente invisível que unia todos. Cada travessura se transformava em história, cada erro em gargalhada, e cada momento confuso em memória feliz. Naquela mesa o silêncio só reinava quando todos olhavam para o céu através da janela e viam as estrelas cintilantes, imaginando que outras casas viviam o mesmo calor familiar.
Todos os sorrisos e a partilha de histórias e afetos, valiam mais do que qualquer refeição perfeita: ali, a família estava completa, e a alegria era a principal iguaria.
Todos gostavam de ouvir a mãe, na sua voz doce, dizer que lá em casa, era Natal a todas as refeições.
Professora e Escritora






