Sobre “o deus que habita em nós” – Por Onofre Varela

Em conversa com um amigo falávamos da diversidade de sensibilidades políticas e religiosas que unem as pessoas mas que também as separam, e muitas vezes conduzem a agressões verbais ou físicas condenáveis… só porque uns gostam de maçãs, e outros preferem pêssegos!…
Sendo, a agressão, uma atitude condenável, na verdade ela também é natural em nós. Faz parte da nossa característica de predador com que a Natureza nos dotou como sistema de defesa, ataque e sobrevivência.
Porém, se a Natureza nos fez predadores – tal como fez o leão – também nos equipou com um cérebro de características especiais, dando-nos raciocínio, sensibilidade e inteligência… faculdades que o leão não possui. Por isso nos obrigamos a usar as nossas características de “Sapiens”, contrariando o mero animal que somos, usando “o deus que habita em nós” (isto é: a sensibilidade, o sentido de fraternidade e o respeito pelo outro) abandonando a parte mais animalesca de nós que, naturalmente, faz o leão e que também possuímos.
O meu amigo arregalou os olhos de espanto. Sabendo-me ateu, estranhou a minha referência “ao deus que habita em nós”! Compreendi o seu assombro porque o Ateísmo sempre foi vilipendiado e dele se faz, erradamente, exemplo de desvio comportamental no pior dos sentidos. Na verdade não há razão para espanto; ateus e religiosos são os mesmos Seres Humanos, naturalmente com diversas sensibilidades filosóficas, mas com os mesmos sentidos de Fraternidade e Humanidade (quando não distorcidos por ideologias políticas e religiosas criminosas).

Os ateus criticam “a ideia da existência de um deus exterior a nós”, no aproveitamento social, político e económico que da ideia se faz; mas nunca criticam “o deus que habita em nós”… isto é, a ideia que nos levou à criação de um panteão e depois à sua depuração até chegarmos ao “Deus único” adorado por judeus, cristãos e muçulmanos.
O processo desta “depuração da ideia de Deus” ainda não está concluído. Faz-se na lentidão da evolução, através dos tempos, e levar-nos-à a dispensar, também, o “deus Jeová” entendido como “Deus único”, criado pelos Hebreus – a partir da importação do deus Aúra-Mazda da Pérsia (Persépolis – Irão) – depois retocado pelos Cristãos e adoptado por Maomé com a designação de Alá.
Quando refiro “o deus que há em nós”, sei que sou compreendido por aqueles que me lêem e são crentes, pois a força que sentem na crença que alimentam no “deus que habita as suas mentes” é (talvez sem imaginarem) o resquício da ancestral ideia do deus que sobrou da purga que o tempo fez aos panteões grego e romano, o que sublinha o raciocínio, a inteligência, a sensibilidade e o sentido estético que nos conduziu à criação da Arte, ao entendimento do belo… e à criação de deuses.
Esta sensibilidade é, no fundo, a característica mais visível daquela parte de nós que sublinha o facto de sermos “Sapiens”, diferenciando-nos de todos os outros animais nossos companheiros da vida que eclodiu na Terra, fazendo de nós os seres especiais e superiores que, realmente, somos. Mesmo assim, quando em discordância com os nossos semelhantes, somos capazes de adoptar comportamentos iguais aos de um qualquer animal predador inferior, porque a nossa origem animal é a mesma… embora raciocinemos, deixamos, imensas vezes, a nossa “característica tormentosa” comandar-nos, tomando conta da Razão.
E por esse caminho não é raro ficarmos em patamares inferiores aos irracionais nossos irmãos de reino, porque enquanto que eles só guerreiam por alimento, por fêmea e pelo domínio do grupo, nós fazêmo-lo pelas mesmas três razões… e ainda acrescentamos a lista, tomados por uma cupidez e irracionalidade demonstrativas do pior da nossa condição animal… o que parece incongruente com a nossa capacidade de raciocinar que nos dá a condição de “animal superior”… mas a verdade é que somos assim!…
Somos um produto natural ainda muito mal acabado, à espera que o passar do tempo nos “lime as arestas” numa evolução que nos transforme em seres verdadeiramente superiores, inteligentes, sensíveis e fraternos… em duas palavras: verdadeiramente inteligentes!
(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)