Silêncio que se vai liderar – Por Rui Rodrigues

Sempre tive mulheres a liderar os espaços onde estive. No profissional, no académico, até no pessoal, os exemplos mais fortes de liderança que conheci sempre foram femininos. É um facto da minha vida e uma das maiores influências no modo como vejo hoje o que é liderar. Talvez por isso me irrite a tendência para desvalorizar o que não se mostra, como se só o que aparece fosse trabalho real.
Há um erro em assumir que se não há exposição, nada acontece.
Já fiz parte de equipas lideradas por mulheres que nunca precisaram de se exibir para que todos percebessem a força da sua condução. Discretas no dia-a-dia, incansáveis nos bastidores. Aprendi desde muito cedo que a ausência de barulho não significa ausência de trabalho.
Nos estudos também tive líderes femininas que marcaram a minha forma de pensar. Orientadoras, coordenadoras, docentes que souberam, e sabem guiar sem precisar de ser o centro das atenções. Muitas vezes o grupo inteiro não percebia o que estava a ser construído até ao momento em que o resultado surgia. E quando surgia, era sólido, transformador, e era impossível negar a consistência do processo. O que inicialmente parecia silêncio era, afinal, trabalho e paciência.
E depois há o lado pessoal. Cresci sempre com referências femininas que mostraram, na prática, que liderar não é fazer barulho. É segurar, é sustentar, é preparar, mesmo quando ninguém está lá para bater palmas. Esses exemplos ensinaram-me que a liderança é muitas vezes invisível e que é precisamente essa invisibilidade que garante que tudo o resto funciona.
O empreendedorismo e a liderança feminina vivem esta tensão todos os dias.
Espera-se das mulheres no poder uma exibição constante das suas conquistas, como se só assim fossem legítimas.
O que aprendi com todas estas experiências é simples, o essencial faz-se nos bastidores através do que nunca aparece numa notícia, o que não cabe num post nas rede social, o que nunca terá uma fotografia. Esse silencioso trabalho é o que dá estabilidade, o que cria futuro, o que torna possível que um projeto se sustente.
Já senti estar tudo parado. Que nada avançava.
Mais tarde percebi que, na realidade, o trabalho estava a ser feito, em silêncio. O que parecia inércia era planeamento. O que parecia ausência era presença num lugar onde o impacto ainda não se podia ver. Essa lição nunca mais me abandonou.
Liderar não é satisfazer a pressa dos que estão de fora. Liderar é ter a coragem de manter o rumo, mesmo quando não há visibilidade. É confiar no processo. É aceitar que o mais importante, poderá nunca será visto.
E é isso que aprendi com as líderes femininas que sempre me acompanharam. Não confundem o protagonismo com valor. Não se deixam enganar pela pressa. Constroem em silêncio e aparecem quando o resultado já está à vista de todos.
É aí que se percebe a diferença.
O que parecia silêncio, era estratégia.
O que parecia ausência era a forma mais poderosa de presença.