6.6 C
Porto
Quinta-feira, Maio 23, 2024

Será que de “país de brandos costumes” caminhamos para povo tolerante ao racismo?!

As mais lidas

Não consigo ficar indiferente a fenómenos de violência, sobretudo de violência pura e gratuita, como o caso dos acontecimentos da semana passada no Porto. Sinto-me espantada e indignada com tamanha atrocidade! A minha indignação e tristezas levam-me, uma vez mais, a defender a necessidade de refletirmos conjuntamente sobre este problema!

Sim, porque temos um problema racista e, sim porque para o resolver é necessário o debate conjunto, a discussão alargada à sociedade em jeito de “exame de consciência nacional” como em tempos propôs Eduardo Lourenço. Para defender estas teses importa, primeiramente, aclararmos um determinado passado histórico que parece aprisionar-nos e impedir-nos de verdadeira autocrítica.

A nossa identidade funda-se no “glorioso passado” que constantemente enaltecemos e celebramos, mas que, na sua exacerbada “mania da grandeza”, padece de amnésia profunda face aos feitos criticáveis e deixa-nos “aprisionados” em nós mesmos. Nada deste contexto, porém, justifica atos racistas, porque não há justificação para o mal! Nem o mesmo se pode banalizar. Mas, para pensar sobre um problema torna-se necessário primeiramente expô-lo.

ocidadao MAIN IMAGE
Foto de Maria joão

Parece que o nosso peculiar “modo português de estar no mundo” (Eduardo Lourenço) está longe desse olhar imaginário, interno e mítico, de “povo de brandos costumes” para de modo progressivo se estar a converter numa visão de povo tolerante ao racismo.

Pensar sobre um imaginário coletivo não-racista, coabitante com uma realidade (crença) racista silenciosa é um salto histórico que temos de dar em conjunto para nos voltarmos a definir com orgulho e a (re)construir como sociedade plural igualitária e democrata.

O nosso passado imperialista e colonialista e, mais recentemente, o Estado Novo só abandonado há 50 anos, contribuíram ambos para uma visão homogeneizada da sociedade ainda na senda de uma mentalidade colonial. O debate crítico bem como a tomada de consciência da diversidade cultural são fenómenos bastante recentes para a maioria dos portugueses. Para tal, terá contribuído certamente a recente mudança de visão de um país de emigração para um país de imigração, dado que só a partir dos anos 80 e 90 do século passado, se começou a fazer sentir o aumento da diversidade populacional com a chegada, primeiro dos imigrantes dos PALOP e, a seguir, da vaga de imigração proveniente do leste da europa, caso mais significativo dos romenos e búlgaros.

As questões sobre a diversidade cultural em Portugal resultaram tanto mais das exigências das políticas europeias do que propriamente de uma reflexão e debate críticos internos.
O racismo é estrutural, é certo. O racismo é também um processo, uma vez que não existe fora das práticas quotidianas, onde é reproduzido e reforçado. Neste contexto aceitamos que imigrantes oriundos de países menos desenvolvidos se fixem no nosso país e exerçam profissões mais práticas, onde escasseia a mão-de-obra, como as ligadas à construção civil, agricultura, pesca, restauração, limpeza…é por aqui que se encontram e aceitam comunidades de indonésios (na zona piscatória das Caxinas, em Vila do Conde); indianos e timorenses (na zona do Alto Douro); porém, o comportamento muda face aos nepaleses e bangladeshianos que pelo Porto se veem com bastante frequência a conduzir tuk-tuks ou outras pessoas oriundas da Ásia e da África Subsaariana que vivem do pequeno comércio ou trabalham nas cozinhas dos restaurantes ou nas limpezas de hotéis.

ocidadao MAIN IMAGE 1
Foto de Maria João

Estes, parecem querer, pelas diferenças culturais e religiosas ou, simplesmente, porque habitam a cidade e se tornam visíveis, assustar e até serem alvo de grandes críticas e atos de discriminação.

Convém referir que me centro em exemplos do Norte, porque me são mais familiares e foi aqui que ocorreram os últimos crimes racistas.
Conheci, há dias, uma emigrante que vive há 53 anos em Bordéus, uma emigrante de primeira geração, das que saiu clandestinamente do nosso país em busca de melhores condições. Confidenciou-me que sempre foi muito bem tratada e  vivia muito bem, mesmo sem nunca ter aprendido francês! Como esta senhora, milhares de portugueses durante várias décadas emigraram, sobretudo entre os anos 50 e 70 do século passado, com fraca ou nenhuma instrução, mas com a característica maior de povo português a de “povo trabalhador” que lhes permitiu ascender à classe média francesa e serem reconhecidos atualmente no cenário francês como “bons trabalhadores”.

Se, na altura em que me cruzei com esta conterrânea, e ao ouvir a sua história, senti um misto de orgulho e vergonha: orgulho pela sua coragem aventureira e pelas conquistas alcançadas, uma certa vergonha pelo nosso passado histórico que obrigou a tal debandada.

Hoje, ao escrever esta crónica, lamento não saber de nenhuma história feliz dos imigrantes que partilham a minha cidade. Acredito, quero acreditar, que as há.

Sabemos que temos neste momento as novas gerações mais instruídas e mais bem preparadas de sempre, os nossos Millennials e Z poderão vir a ser as “gerações mais ricas da história”, serão os profissionais do futuro. Com um mercado de trabalho aberto a inúmeras possibilidades devido à evolução das tecnologias, ao avanço da digitalização e da IA. Mas, esta especialização parece reservada aos povos ocidentais e mais desenvolvidos. Por isso, cada vez mais será necessária mão-de-obra menos qualificada ou para empregos com os quais os nossos jovens demasiado instruídos não se identificam. E por isso, os fenómenos migratórios serão uma constante.

22
Foto de Maria João

Num país bastante envelhecido como o nosso e com uma taxa de natalidade tão baixa, precisamos destes novos migrantes. De acordo com os últimos dados estatísticos, são mais de 700 mil os imigrantes residentes em Portugal e destes, mais de 500 mil são no seu conjunto oriundos de África, América do Sul e Ásia. A nossa economia precisa deles e na sua maioria são eles que equilibram as contas da segurança social e que rejuvenescem a nossa população.

São os que “agarram qualquer trabalho”, tal como os nossos emigrantes o fizeram há décadas. Sem eles, possivelmente não comeríamos peixe nem fruta portuguesas, não faríamos refeições nos restaurantes, nem turismo por esse país fora…

Portanto, há que melhorar as políticas de integração, temos de criar melhores condições de trabalho, de acesso à habitação e à saúde, tornar possível o exercício pleno dos seus direitos no nosso território. Porque isso lhes é devido! Porque falamos de pessoas, que independentemente da sua nacionalidade, são iguais em direitos! Não basta criarmos institutos, gabinetes e associações de apoio a estas populações, é preciso colocá-los a funcionar de forma célere e eficiente. Só assim poderemos ser uma sociedade de inclusão e de verdadeiro acolhimento aos seus imigrantes.

E se essas competências são do Estado, há em cada um de nós uma responsabilidade política e social da qual não nos podemos arreigar. Enquanto cidadãos participativos e ativos temos de olhar para os nossos imigrantes de outra forma. Aliás, há mesmo que treinar o olhar e começar a vê-los como “outro” igual a nós. Como aquele de quem dependemos e que é indispensável no nosso quotidiano. Mas, sobretudo como pessoas que tal como nós, são frágeis e vulneráveis, têm esperanças e sonhos!

Vê-los, ouvi-los e dar-lhes voz. Torná-los visíveis e conhecidos. Não os vermos apenas como “estrangeiros” e “estranhos”, desconhecidos, e como tal ameaçadores do nosso equilíbrio social. É sabido que o que não se conhece assusta, ameaça, gera insegurança. Quando não conseguimos classificar o outro como igual, munimo-nos de preconceitos e da nossa “hiperidentidade” para encontrar diferenças com as quais não queremos conviver. A partir daí é sempre mais fácil excluir e discriminar. É este processo que precisamos de inverter.

Ainda que pareça difícil, temos de nos abrir à diversidade, ir de encontro a essa diversidade que hoje caracteriza também as nossas cidades, pois, só a partir desse campo novo de afetos emergentes se pode conhecer cada pessoa na sua singularidade e torná-la membro da nossa comunidade. E, enquanto grupo, termos a capacidade de nos interpelarmos, re-interpretarmo-nos para explorarmos cenários de configuração de novos mundos habitáveis possíveis. Este é o único caminho que pode travar atos racistas.

Temos de nos comprometer com os “outros” que na sua diferença nos são próximos fisicamente e tornam mais leve o nosso quotidiano, termos a coragem de os tratar como “vizinhos”, saber o seu nome e interagir com eles. E em conjunto descobrirmos novas maneiras de viver, de sentir e de agir. É este o caminho da multiculturalidade à interculturalidade.

Não tenhamos dúvidas que haverá sempre jovens e pessoas ativas oriundas de outras latitudes a chegar ao nosso país. Ainda bem!

WhatsApp Image 2024 05 09 at 17.57.39 1
Foto de Maria João

Que saibamos dar-nos a oportunidade de  relacionarmo-nos com estes povos como um verdadeiro povo hospitaleiro, apaziguado com a sua história e com vontade de construir novas memórias felizes. Porque esta é também a nossa alma, a alma portuguesa que sabe estar e receber bem os outros, porque essa é a nossa experiência de seres históricos, com memória e projetos. Seres humanos concretos que agem e sofrem nesta aventura da vida.


- Publicidade -spot_img

Mais artigos

- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img