Nota da Redação: O Cidadão inicia hoje um conjunto de crónicas e entrevistas com pessoas que vivem na rua ou em albergues, na cidade do Porto. Gente que, pelos mais diversos motivos, ficou sem teto e que dá o seu testemunho na primeira pessoa. A recolha é do músico, nosso companheiro de trabalho, António Ferro. Como exemplo,i nicia a rubrica, relatando a (má) experiência por que passou. De seguida, serão outros/as que vivem ou viveram na rua a dar o seu testemunho.
- Ser Sem Abrigo no Porto
Um sem-abrigo (ou sem-teto) é uma pessoa que, por díspares razões, não tem uma residência fixa, segura e protegida, onde possa viver. Pode dormir na rua, em abrigos temporários, carros, pensões muito precárias ou outros locais improvisados. Ou em albergues (Albergues do Porto) e noutras instituições públicas, como o CAS – Centro de Alojamento Social
As causas podem ser variadas, como dificuldades económicas, desemprego, problemas familiares, doenças físicas ou mentais, dependências, ou simplesmente falta de uma rede de apoio. Em Portugal, costuma-se usar o termo pessoa em situação de sem-abrigo, que é considerado mais respeitoso e humanizado.
Foi o meu caso. No dia 18 de Maio de 2025. A minha prezada e querida sexta mulher, não pensem que estou a ser irónico, mas foi de todas as seis, a que melhor me tratou e me acompanhou nas doenças. Foi essa dileta mulher que mostrou o cartão vermelho e fui coagido e impelido a pernoitar no Aeroporto Sá Carneiro, numa altura em que se podia pernoitar…Agora pedem-nos o cartão de embarque, não temos, vamos para o olho da rua, como eu fui uma noite…
Falei com a minha assistente social que, prontamente, me conseguiu entrada no albergue no Porto, situado junto à Praça da República.
É um albergue, onde convivem cerca de oitenta utentes, entre homens e mulheres! Se o Felini tivesse conhecido este espaço, ía decerto deliciar-se com os rostos sórdidos e abjetos, que iria encontrar…
No segundo dia, roubaram-me o telemóvel, e no dia seguinte limparam a carteira, enfim…Falei novamente com a assistente e fui viver para o Albergue de Campanhã. Muito melhor, apenas catorze homens! Muito bem tratados! Cinco refeições por dia, roupa de cama mudada semanalmente. Duches muito melhor do que eu tinha em casa. Sala de convívio com máquina de café e televisão sempre ligada. Tínhamos que deixar o quarto pelas 8 horas e só podíamos voltar pelas 16h30. A chave era deixada de manhã ao vigilante, razão pela qual ao “invadirem” o meu cacifo, descobriram uma prenda de um amigo meu, uma pequenina garrafinha de whisky, um amostra, e foi essa a razão pela qual fui expulso…Uma dessas noites, cheguei 10 minutos atrasado e não me deixaram entrar…Mais uma noite no aeroporto…
Próximo passo e ÚLTIMO!!!
O CAS – Centro de Alojamento Social, na Lapa.
Entrei e pensei que tinha errado a porta, pois só ouvia falar àrabe…
Na verdade, este local é destinado a famílias, e havia da: Índia, Síria, Afeganistão, Angola, Ucrânia, etc…
Muito bom em termos de logística. Desde a alimentação, aos quartos, aos duches, às refeições. Tínhamos uma sala de convívio até às 23 horas, depois “chichi cama”. A sala abria pelas 8 horas, altura do pequeno-almoço. O pessoal irrepreensível, desde os vigilantes, à cozinha e limpeza. As moderadoras sempre atentas e prontas para ajudar. Foi uma dessas técnicas que me arranjou o quarto, onde estou neste momento a escrever…
Depois de seis meses, onde vivi na pele do que é um sem abrigo, sem nunca ter vivido na rua, a minha hombridade, integridade e dignidade não o permitiria, achei por bem, além de contar a minha história, contar as dos sem abrigo. Esses sim! Esses viveram na rua e em bouças no mato…Há pouco, ao vir para o meu quarto quentinho, observei as pessoas que estavam a dormir em cobertores e cartões, debaixo de umas arcadas e pensei. Se nós em casas e apartamentos, com cobertores , edredãos e aquecedores temos frio, pensei, como estará esta gente?…
Foi duro, mas necessário! Sempre fui um burguês, a quem nunca faltou casa e comida. Sempre vivi em casa das mulheres, nunca me preocupei com assuntos da casa (Água, luz, gás, NET…). Elas pagavam e eu dava o dinheiro.
Ganhei muito dinheiro, mesmo muito! Quando atuei com o Fernando Pereira (imitador), cheguei a atuar vinte e nove seguidas por mês. Nesses meses (julho e agosto), auferia por mês 750 contos! Na digressão que fiz pela Ásia, onde atuei em quase todos os países, em duo com o mestre Wong On Yuen, auferia 250 hong kong dólares (cerca de 300 cts) por concerto. Em suma. Cheguei a ter no banco, nessa época, 130.000 contos (mais de seiscentos mil euros).
O que fiz ao dinheiro?
Um dia cheguei a casa, depois de um mês fora e, ao entrar, apenas visionei a alcatifa, pois não havia nada por cima…Pelas 8 horas fui a correr ao banco, nessa altura não havia multibanco nem telemóveis e aí tive a malvada notícia…A minha “não” querida mulher, tinha-me deixado 500 escudos na conta…
E eu ainda vou casar mais quatro vezes? Sou mesmo um caso perdido…
E eu, agora que queria “curtir” esta liberdade de estar finalmente solteiro…Foram quarenta e cinco anos, com seis mulheres e quatro amantes, inscrevo-me num curso de mais de um ano onde sou o único homem e o resto da turma são doze mulheres!!! Deus! Agora envias mulheres às dúzias?…
O próximo artigo é sobre o sem-abrigo senhor José Dias.
Músico/Colaborador






