Ser mulher na política local

CADA PALAVRA DITA NAQUELE PÚLPITO CARREGA TRABALHO, REFLEXÃO E SENTIDO DE RESPONSABILIDADE DEMOCRÁTICA

Há trabalhos que quase ninguém vê.

Talvez por isso, raramente se fale deles.

Ser mulher na política local é, muitas vezes, viver entre responsabilidades que se acumulam e se cruzam, quase sempre longe do olhar público. Não é apenas subir a um púlpito numa noite de Assembleia. Não é apenas votar uma proposta ou fazer uma intervenção.

É muito mais do que isso.

Como líder de grupo municipal na Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, um dos maiores municípios do país, tenho plena consciência da dimensão dessa responsabilidade. A Assembleia Municipal é o órgão fiscalizador do município, a instância onde se acompanha, questiona e escrutina a ação do executivo num território com 24 freguesias e centenas de milhares de cidadãos.

Mas há uma realidade que poucos conhecem.

Os deputados municipais não têm horas de dedicação política reconhecidas. Não têm tempo institucional para preparar os debates. Nem sequer têm o dia da Assembleia reservado para estudar os documentos que vão discutir.

Formalmente, todo esse trabalho resume-se a algo quase simbólico: uma senha de presença na noite da Assembleia.

Mas quem leva a política a sério sabe que a realidade é bem diferente.

Cada intervenção feita numa Assembleia Municipal nasce de horas de leitura, análise de documentos, estudo de propostas, investigação e acompanhamento permanente da vida do concelho.

Nada nasce do improviso.

Cada palavra dita naquele púlpito carrega trabalho, reflexão e sentido de responsabilidade democrática.

E esse trabalho acontece fora das horas institucionais.

Acontece depois do trabalho profissional.
Depois das reuniões.
Depois das responsabilidades familiares e domésticas que continuam, muitas vezes, a recair de forma desproporcionada sobre as mulheres.

É uma realidade silenciosa que muitos conhecem, mas poucos dizem.

No meu caso, a política é apenas uma das dimensões da minha vida.

Sou técnica superior de saúde no IPO Porto, numa área exigente e profundamente humana como a radioterapia. Sou também docente adjunta convidada no Instituto Politécnico de Castelo Branco, onde participo na formação de novos profissionais de saúde.

Mas há ainda a vida política.

Há as reuniões da Comissão Política de Gaia.
Há documentos para analisar.
Há decisões que exigem estudo e reflexão.
Há notícias que é preciso acompanhar.

Porque Gaia é um concelho dinâmico, exigente e permanentemente presente no espaço mediático.

Mas há algo que continua a mover-me.

O gosto pela política.

Não pelo protagonismo momentâneo.
Mas pelo debate de ideias, pela construção de soluções e pela participação ativa na vida pública.

Porque a política, quando é feita com sentido de missão, é uma forma de servir a comunidade.

Ser membro de uma Assembleia Municipal é talvez uma das missões mais importantes da democracia local. É ali que se garante o escrutínio democrático, que se acompanha o caminho do município e que se criam as condições políticas para que o executivo possa concretizar a sua ação e alcançar resultados.

Mas esse equilíbrio nem sempre é simples.

Há assembleias… e há assembleias.

Quando a maioria é curta e existe uma coligação política, manter essa estabilidade não é propriamente uma tarefa de ânimo leve.

Em Vila Nova de Gaia, o executivo assenta numa coligação entre PSD, CDS e Iniciativa Liberal. Saber conciliar sensibilidades políticas diferentes, respeitar as convicções de cada força política e encontrar pontos de convergência é, muitas vezes, um exercício exigente de diplomacia política.

É um trabalho feito com responsabilidade e sentido de missão.

Porque governar um grande município exige mais do que decisões administrativas.

Exige visão.

E essa visão é algo que reconheço em quem hoje lidera o executivo municipal.

O Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Dr. Filipe Menezes, transmite uma confiança rara na política. Pela capacidade de pensar o futuro do concelho, pela visão estratégica que apresenta e pelo humanismo que coloca nas decisões.

É um homem de ideias e de futuro.

Essa visão transmite segurança, motivação e até um certo orgulho em participar neste caminho coletivo de construção de um concelho mais forte.

No Dia Internacional da Mulher, vale a pena lembrar algo essencial.

Há muitas mulheres que participam hoje na política sem horários protegidos, sem reconhecimento do trabalho invisível e muitas vezes sem as condições que outros têm.

Mas continuam.

Continuam porque acreditam que a política vale a pena.

Porque sabem que cada proposta analisada, cada intervenção preparada e cada posição assumida representa um compromisso com os cidadãos.

Ser mulher na política é, muitas vezes, caminhar entre várias vidas ao mesmo tempo.

A vida profissional.
A vida familiar.
A vida pública.

Mas é também a prova de que a democracia se constrói com pessoas que acreditam no que fazem.

E quando subo à tribuna da Assembleia Municipal, cada palavra que digo carrega horas de trabalho, estudo e convicção.

Porque a política, para mim, nunca foi um palco.

É um compromisso.

Um compromisso com as pessoas.
Um compromisso com o território.
Um compromisso com o futuro.

E esse compromisso tem um nome.

Gaia.

Porque a democracia também se constrói nas horas que ninguém vê.