Ser Criança

Há notícias que ficam connosco mais tempo do que deviam.

Não pela violência.
Não pelo choque.
Mas porque mexem num sítio muito específico dentro de nós.

Esta semana aconteceu-me isso.

Li uma notícia sobre duas crianças abandonadas no meio do nada e fiquei com um nó no estômago o dia inteiro.

Desde que somos pais deixamos de olhar para crianças da mesma forma.
Passamos automaticamente a imaginar os nossos filhos.

O medo deles.
A inocência deles.
A confiança absurda que depositam em nós.

E talvez seja isso que mais me custa na infância:
a entrega total.

Uma criança acredita.
Sem filtros.
Sem defesas.
Sem sequer imaginar que alguém capaz de lhe dar a mão também a pode largar.

Ser criança devia ser sinónimo de segurança.

Devia ser colo.
Riso.
Joelhos esfolados.
Desenhos tortos.
Adormecer tranquilo no banco de trás do carro.
A certeza de que alguém volta sempre.

Mas às vezes o mundo falha-lhes demasiado cedo.

E isso revolta-me profundamente.
Porque uma infância maltratada não acaba na infância.

Fica escondida nos adultos que essas crianças um dia serão.
Talvez por isso devêssemos levar mais a sério aquilo que dizemos, fazemos e deixamos nas crianças.

Porque há memórias que passam.
E há outras que ficam para sempre.

Ser pai também é isto:
perceber que os nossos filhos nos tornam mais vulneráveis ao mundo.

Há notícias que antes passavam ao lado.
Hoje já não passam.

E ainda bem.

Porque no fundo, proteger uma infância talvez seja a forma mais séria de proteger o futuro.