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Domingo, Abril 14, 2024

Sentir-se só numa vida a dois – Por Rosa Maria Aranha

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Rosa Maria Aranha
Rosa Maria Aranha
Advogada / Responsável pelo projeto StopViolênciaContraMulheres

Cada dia que passa, as pessoas sentem-se cada vez mais sozinhas numa relação a dois, seja de namoro, de união de facto ou de casamento; estejam numa casa pequena ou grande, o espaço torna-se oco e vazio, cada recanto é suficiente para que cada um esteja sozinho a ler, a ver televisão, ou simplesmente a deslizar as notícias ou novidades no telemóvel ou no computador…

Numa vida a dois, por vezes, poucas ou nenhumas palavras são proferidas ou trocadas um com o outro, mesmo na hora da refeição o diálogo é parco ou nulo, nem sequer há um motivo ou assunto a debater.

Os dias passam, um atrás do outro, a rotina e a solidão instala-se cada vez mais, torna-se a casa num velcro de silêncio absoluto e enternecedor, crescendo para o abismo, em formato de bola de neve. Uma triste e mera realidade nos dias de hoje…

Na verdade, a distância e o vazio, nas relações a dois, são cada vez maiores. Por vezes, a angústia, a dor da solidão aliada à tristeza interior de mais um dia passado a sós é desolador, que muitas vezes, leva a um FINAL NÃO FELIZ: ao homicídio ou ao suicídio seguido do homicídio cometido.

Esta triste constatação verifica-se, maioritariamente, em casais de meia-idade, alguns já reformados, que regressados a casa a tempo inteiro se escondem no desalento, cuja acomodação prolifera na constatação da verdadeira solidão dentro do seu próprio lar, repartido a dois, já que os filhos, caso existam, estão casados ou vivem longe dos pais (imigraram ou emigraram).

Posto isto, o cerne do problema reside e culmina quando um deles, na maior parte das vezes, a Mulher – hoje mais independente e mais autónoma – toma a decisão de pôr fim à relação já inexistente e desgastada; decide, assim, abandonar o barco que já há muito estava à deriva, ou seja, pôr um ponto final e um basta naquela triste solidão, numa vida sem rumo, sem alegria e sem harmonia, principalmente sem a vida a dois, que certo dia prometeram um ao outro “até que a morte nos separe”.

Acontece que, com o passar dos anos ambos deveriam ter atingido e alcançado o patamar de coesa cumplicidade e companheirismo, de um fim de vida a dois, mas não. Esse desejo outrora prometido e idealizado tornou-se, desesperadamente, indesejado e sem qualquer sentido.

E é nesse preciso momento de negação e de recusa, que um deles não aceita a rejeição e o abandono do outro, isto porque, habituado a uma esperada rotina diária como um sentar-se à mesa com o jantar e o almoço sempre atendível e disponível, que por vezes mesmo assim reclama, que não é nem está do seu agrado, como encontrar a casa sempre limpa e arrumada, ou seja, cama e roupa lavada; continua mesmo assim a prender, perseguir, massacrar e a controlar a vida do outro por simplesmente se ter acostumado a uma vida livre, quando trabalhava, sem ter de dar justificações ao outro, do quer que seja, a que título for.

É aí que a revolta surge, a não-aceitação da separação que, indubitável e lamentavelmente, leva à violência física, perseguição, a uma vida de tormento, de receio e de medo pela morte, porque a violência psicológica já lá estava bem retratada e eminente. Tudo isto resulta porque a outra parte decidiu pôr fim a uma vida triste, repleta de solidão a dois, já sem sentido e sem rumo de vida, acima de tudo por ser desvalorizada como Mulher e desconsiderada como pessoa e ser pensante, vida perplexa de uma relação recheada de ingratidão e de maltratos a uma Mulher digna e incansável que sempre foi.

Na verdade, sabendo que há exceções que confirmam as regras e que há Homens que enfrentam esses mesmos problemas, para os quais já ouvi e defendi na justiça, e que continuo a defender, para o qual realço que, infelizmente, ainda muitos casos destes estão e são camuflados e contidos pelos próprios em absoluto silêncio, quer pela vergonha a enfrentar perante a sociedade quer pela abrangência e visão julgada e encarada no mundo dos Homens.
Mas, indiscutivelmente, que é na grande maioria nas Mulheres que a violência doméstica mais se reflete e se traduz em número de casos diários, já com números significativos na meia-idade ou com idade mais avançada, talvez por considerarem que já não devem continuar a atender sozinhas a todos os caprichos e afazeres da lida da casa, dado que ambos estão numa vida de ócio.

Mulheres essas fartas da vida de submissão e de vassalagem, arrastada por largos anos, seguidos e contínuos, aliada agora à solidão e à angústia decidem libertar-se, a aprender a serem felizes na meia-idade e principalmente por terem a consciência de que apenas podem contar consigo mesmas, deixando para trás todo o egoísmo, a ingratidão, a desconsideração e o não reconhecimento por parte do parceiro pelos anos vividos a dois.

Como o ditado diz: “por detrás de um Homem esteve sempre uma grande Mulher. “
Muitas Mulheres pensam que devem repensar e reconsiderar a sua felicidade nos dias que lhes restam, dado que o dia de hoje poder ser o seu último. Isto porque, as pessoas acomodam-se, cada vez mais, julgam que o parceiro tem a obrigação de ser submisso e aceitar tudo e todos.

Ademais, o parceiro que não aceita a separação, a maior parte das vezes toma decisões extremas, ora persegue, ora agride violentamente ou ainda mais grave, comete o suicídio ou o homicídio e este, por vezes, seguido de suicídio.

Em suma, se este for o seu caso, pare, reflita e pense no caminho de vida que está levar, pense na sua parceira, coloque-se no seu lugar, valorize-a, pois é com Ela que vai ter de depender o resto dos seus dias, e nada nesta vida é garantido como seu, pois a vida pode pregar-lhe uma partida e pode ser já tarde voltar atrás no tempo e arrepender-se-á, feroz e vivamente, da vida que levou e de tudo aquilo que não disse, que não fez, e que simplesmente, por descuido, egoísmo ou capricho desperdiçou indevidamente.

A vida é curta, aproveite-a intensamente, como se fosse o seu último dia, e é para ser vivida em pleno e a dois, se for esse o seu caso.

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