Um dos grandes problema dos atuis ciclos político-mediáticos é o serem gritantemente monotemáticos. De um momento para o outro, por força da realidade ou apenas de um golpe de comunicação bem executado, há sempre um assunto que, periodicamente, consegue tornar-se monopolizador dos debates, retirando espeço e tempo a todos os outros, mesmo os que poderiam ser mais urgentes e abrangentes.
Desde as eleições de 18 de maio, à semelhança do que já tinha sucedido depois das legislativas de 10 de março do ano passado, tornou-se quase imperativo, em qualquer debate político, discorrer sobre o eleitorado do Chega, quais as razões do seu crescimento e o que isso pode significar para a democracia e para a governação do País. Naturalmente, tendo em conta o discurso e as propostas de André Ventura, o debate justifica-se já que são legítimas as dúvidas sobre se estaremos a assistir a uma mudança profunda na sociedade portuguesa em relação aos valores da liberdade, da democracia, da solidariedade e do respeito pelos direitos humanos em que assentaram as pedras basilares do nosso regime. Como também, são justificados os apelos para que não se marginalizem os 22,56% de eleitores que votaram no partido que se insurge contra os “50 anos” de regime democrático.
No entanto, se os eleitores do Chega precisam de ser compreendidos, e as suas aspirações levadas em linha de contas, não podem, no entanto, ser vistos como se tivessem passado a ocupar o centro do debate político. E, muito menos, que as bandeiras do Chega, como a corrupção, a insegurança e a imigração, se transformem na cartilha que tem de estar presente em todas as intervenções políticas, nas entrevistas outros líderes partidários ou aos futuros candidatos à Presidência. Especialmente, quando essa agenda retira espaço e tempo de antena e temas fulcrais para o desenvolvimento do País, como a educação e economia, a saúde, a demografia, a inovação tecnológica, o ambiente ou a cultura.
É preciso olhar para a realidade exatamente como ela é e mais desprendida das “agendas” mediáticas e políticas, que apenas procuram animar o “circo” e ganhar audiências. E, nesse campo, há algo aritmeticamente muito simples; se 22,56% dos eleitores votaram no Chega, também é verdade que 77,44% dos portugueses não votaram no Chega. O partido de André Ventura ascendeu, por número de deputados, ao estatuto de líder da oposição, mas a realidade é que adquiriu essa condição através de um dos piores resultados alcançados por um segundo partido, em meio século de eleições democráticas.
Os 22,56% de votos do Chega são um resultado extraordinário para um partido que só chegou ao Parlamento em 2019, mas são uma percentagem fraca para os dois partidos que têm alternado no poder. Nunca, em 50 anos, o PSD teve um resultado tão baixo (o pior foram os 24,35%, em 1976). E sempre que teve uma votação semelhante a essa o PS entrou em crise profunda, obrigando à mudança de líder – como sucedeu agora com os 23,38% de votos sob a liderança de Pedro Nuno Santos.
O Parlamento que entrou em funções reflete uma realidade política diferente daquela em que vivemos nas últimas cinco décadas. Mas sem que isso signifique qualquer menosprezo em relação ao crescimento do Chega nem aos seus 22,56% de votantes, seria bem avisado que os partidos democráticos olhassem mais, a partir de agora, para os “outros” 77,44%, para o que eles pensam, como encaram o futuro do País e a razão por que, num momento de grandes clivagens e de enormes convulsões internacionais, continuam a acreditar que a democracia e a liberdade são valores imprescindíveis – e não “balelas”, como diz agora Ventura.
Este 77,44% de eleitores são os que, na verdade, vão decidir as próximas eleições. Tanto as autárquicas de setembro como as presidenciais de janeiro. São eles que de facto, têm o poder de fazer ou desfazer maiorias. E são eles que decidem, no fim, se o País quer viver ou não num clima de instabilidade política e de permanente confronto.
Mas do que olhar o passado, a procurar as razões que levaram milhares de portugueses a votar no Chega, os partidos democráticos devem olhar para o futuro. Em especial para o futuro dos 77,44% dos portugueses que ainda continuam a acreditar na democracia.
Jornalista







