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Sexta-feira, Junho 14, 2024

Segredos destruidores na violência doméstica

A violência doméstica nas relações de intimidade é um fenómeno de violência continuada, muitas vezes mantida em segredo durante anos

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Catarina Gomes
Catarina Gomes
Psicóloga/ Mestre em Psicologia da Justiça e da Desviância

Vítimas de violência doméstica não sofrem uma ameaça à sua segurança ou vida de forma repentina e imprevisível. Ao longo da evolução das trajetórias de Violência Doméstica, as suas vítimas sofrem diversas formas de violência. Mas, assim sendo, que tipos de violência podem existir numa relação abusiva?

Tendencialmente, a Violência emocional e psicológica é a primeira a surgir. A mesma consiste no desprezar, menosprezar, criticar, insultar ou humilhar a vítima, em privado ou em público, por palavras e/ou comportamentos. Criticar negativamente as ações, características de personalidade ou atributos físicos e ameaçar maus-tratos são, também, frequentes e inserem-se neste tipo de violência. Outros comportamentos, apesar de não serem socialmente identificados como violência, constam, ainda, desta longa lista: destruição de objetos com valor afetivo, como fotografias e/ou documentos; perseguição no trabalho, na rua, nos seus espaços de lazer; acusação de ter amantes, ser infiel; privação de descanso/sono.

Segue-se a intimidação, coação e ameaça, intrinsecamente associada à violência emocional-psicológica. Esta forma de violência mantem a vítima em medo constante do que o agressor possa fazer contra si e/ou contra os seus familiares (como filhos), a amigos, a animais de estimação ou a bens seus. Usualmente, o agressor recorre a palavras, olhares, gestos e expressões faciais, mostra ou mexe em objetos intimidatórios (como facas). Pode ameaçar ferir ou matar a vítima, ameaçar que se suicida caso a vítima o abandone ou recorrer à utilização dos filhos para a imposição de poder.
A violência física consiste no uso da força física com o objetivo de ferir/causar dano físico ou orgânico, deixando ou não marcas evidentes. Atos como empurrar, puxar o cabelo, dar estaladas, murros, pontapés, apertar os braços com força, apertar o pescoço, bater com a cabeça da vítima na parede ou outras superfícies constam-se como alguns dos seus exemplos.

Outra forma de violência menos evidente, mas com forte influência no controlo e poder sobre a vítima é o isolamento social. Neste, o agressor recorre a estratégias para afastar a vítima da sua rede social e familiar, proibindo-a que se ausente de casa sozinha ou sem o seu consentimento, não permitindo que a mesma trabalhe fora de casa, afastando-a do convívio com a família ou amigos, entre outros. O isolamento social é uma ferramenta frequentemente utilizada, pela sua eficácia de potenciar a manipulação e controlo da vítima isolada, contrariamente a vítimas com uma boa rede de apoio familiar e social e, portanto, menos suscetíveis a estes.

O abuso económico e a violência sexual surgem, por norma, tardiamente numa relação abusiva, após outras formas de violência. O abuso económico é uma forma de controlo através do qual o agressor nega à vítima o acesso a dinheiro ou bens, incluindo bens de necessidade básica para esta e para os filhos. A violência sexual engloba qualquer imposição de práticas de cariz sexual contra a vontade da vítima (entre as quais violação, exposição ou forçar a práticas sexuais com terceiros, exposição forçada a pornografia…) e comportamentos como amordaçar ou atar contra a sua vontade, queimar os seus órgãos sexuais, entre outros. O agressor tende a recorrer a ameaças e coação ou, muitas vezes, à força física, para obrigar a vítima a praticar estes comportamentos e impedir a sua resistência.

Que efeitos é que estas formas de violência têm nas vítimas? A curto prazo, um vasto leque de reações emocionais: medo, raiva, isolamento e mal-estar. Mas, não só. As queixas somáticas (insónia, dores de cabeça, problemas gastrointestinais, dor pélvica) e sequelas físicas são frequentes. Os efeitos a longo prazo da violência sexual incluem depressão, disfunção sexual, abuso e dependência de drogas, sintomas de stress pós-traumático e sintomas dissociativos. Exposição prolongada à violência física e psicológica potencia depressão, elevada desconfiança, hipervigilância aos sinais de controlo e baixa autoestima. O efeito prolongado destas formas de violência continua a ser o silenciamento da vítima e continuação da violência doméstica de que é alvo.


Perante os exemplos supracitados, compreende-se a eficácia da violência na manutenção do controlo e poder do agressor sobre a vítima. Caro leitor, admire-se: estes são apenas alguns exemplos de comportamentos abusivos e agressivos conhecidos. Agressores de violência doméstica encontram diversas formas de fazer com que as suas vítimas vivam, todos os dias, num pesadelo dentro de quatro paredes.

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