Saudade do presente

Falo de saudade, aquele estado tão português, mas comum a todos.
Costuma vir ligada ao que já passou. Ao que ficou para trás, ao que se perdeu, ao que só regressa em forma de memória. Mas há uma variação mais estranha. Uma que acontece enquanto ainda estamos dentro das coisas.
Há momentos que começam a acabar antes de terem acabado.
Nem sempre por causa de uma tragédia. Às vezes basta um detalhe mínimo. Uma rotina que se repete com brilho a mais. Uma conversa que, sem motivo aparente, começa a ganhar contorno de última vez. Um gesto banal que, de repente, aparece com peso de arquivo.
Acontece quando ainda estamos dentro do momento, mas uma parte de nós já o vê de fora.
Foi isso que senti há dias, num fim de tarde sem importância visível. Havia luz suficiente, uma mesa desarrumada, o som corrente de alguém a falar sem pressa. Nada pedia solenidade. Nada exigia memória. E, no entanto, por um instante, tive a sensação incômoda de que aquilo já estava a passar para o lado das coisas que um dia me fariam falta.
O mais estranho é que nada tinha terminado.
A chávena ainda estava quente.
A voz ainda estava ali.
A tarde ainda nem tinha acabado.
Mas qualquer coisa em mim já estava a despedir-se.
Talvez a saudade do presente seja isto. A dificuldade de permanecer inteira dentro de uma coisa porque já se imagina a falta que ela fará. Um excesso de consciência do tempo. Uma atenção que, em vez de aprofundar o instante, o começa a dividir.
Ficamos em dois sítios ao mesmo tempo. No agora e no depois. No corpo que vive e na memória que já ensaia a perda.
Krystine Batcho e Simran Shikh definem a nostalgia antecipatória como “sentir falta de aspetos do presente antes de eles se perderem”. A formulação é limpa. E talvez por isso mesmo doa um pouco mais. Sentir falta de uma coisa antes de ela desaparecer parece um erro da sequência natural. E talvez seja. Mas é um erro profundamente humano.
Há quem responda a isto com fotografias. Há quem guarde recibos, bilhetes, pequenas provas materiais de que esteve ali. Há quem, diante de um momento feliz, sinta logo a necessidade de o prender.
Há também quem, a meio de um jantar perfeitamente banal, pare de comer por um segundo. Não porque aconteceu alguma coisa. Mas porque percebeu que aquele jantar, exatamente assim, não vai repetir-se. Fica em silêncio um instante a mais. Depois retoma a conversa, mas já ligeiramente fora de tempo. Ninguém comenta. Mas a pessoa já não está exatamente no mesmo momento.
Eu desconfio que, às vezes, essa tentativa de guardar já contém uma pequena perda. No gesto de registar, alguma coisa se desloca. A experiência continua, mas deixa de estar sozinha. Passa a ser acompanhada pela hipótese da sua ausência.
Talvez por isso certos momentos fiquem mais frágeis quando percebemos que são bons. Como se o reconhecimento acelerasse o desgaste. Como se a lucidez tivesse um custo.
Também aqui falhamos de formas muito humanas.
Queremos aproveitar e arquivamos.
Queremos estar e começamos a medir.
Queremos sentir e antecipamos.
Depois dizemos que o tempo passa depressa, quando às vezes fomos nós que o obrigámos a passar duas vezes: uma enquanto acontecia, outra enquanto já o perdíamos por antecipação.
Há uma pequena crueldade nisto. Aprendemos a valorizar o momento, mas quase sempre com a consciência de que ele é irrepetível. Como se cada instante viesse com uma data de validade visível.
Talvez venha daí esse cansaço subtil que às vezes aparece mesmo nos dias bons. Não falta beleza. Falta descanso dentro dela.
Ainda assim, há uma verdade mais funda neste desconforto. Só sentimos saudade do presente quando alguma coisa importa. Quando um instante ganha densidade suficiente para que a sua futura ausência se torne pensável.
Há perda antecipada, sim. Mas também há reconhecimento.
Talvez a saudade do presente seja a forma imperfeita com que o afeto tenta lidar com o facto de nada ficar.
O problema é que ninguém sabe bem como se deve estar nesses momentos.
Se nos entregamos demais ao agora, corremos o risco de não o reconhecer.
Se o reconhecemos demais, começamos a perdê-lo cedo demais.
E então ficamos ali, entre a presença e a sua antecipação, a tentar viver uma coisa que já começa a escapar.
Talvez a pergunta não seja como evitar a saudade do presente.
Talvez seja outra:
– Como ficar dentro de um momento sem começar logo a despedir-se dele?