Rir no desconforto

Já percebemos que algo está desalinhado.
Basta uma pausa ligeiramente longa, uma frase que fica suspensa, um corpo que muda de posição sem saber onde ficar.
O suficiente para que o campo mude. Ainda sem nome, mas já com efeito.
E mesmo assim, continuamos.
Falamos mais um pouco. Ajustamos o tom. Procuramos qualquer coisa que mantenha a situação de pé.
Há uma tentativa discreta de estabilização. Ninguém a assume, mas todos a executam.
Às vezes, alguém ri.
É um riso curto, deslocado, quase um erro. Sai antes do tempo. Fica um segundo a mais.
Mas entra.
E quando entra, revela.
Revela que há mais do que uma coisa a acontecer ao mesmo tempo.
O que está a ser dito.
O que já não está a ser dito.
E o que deixou de ser possível dizer sem custo.
Aconteceu-me há dias:
Uma conversa simples, à partida.
Duas pessoas, uma mesa, tempo suficiente.
A meio, uma frase que não encaixou.
Ficou ali.
Como um objeto esquecido entre duas mãos que já não sabiam o que fazer.
A conversa continuou à volta dela. Como se fosse possível contornar o centro.
A certa altura, ri-me. Sem vontade. Sem razão clara.
Um riso seco. Mais ar do que som.
Ri-me como quem coloca alguma coisa entre duas superfícies que já se estavam a aproximar demais.
A outra pessoa acompanhou. Com um segundo de atraso.
E durante um instante achei que ajudava.
Depois já não tive a certeza.
Fiquei sem saber onde pôr as mãos.
Ou a frase seguinte.
Durante alguns segundos, ficámos alinhados nesse desvio.
E isso bastou.
O riso, nestes momentos, não resolve. Mostra. Mostra que presença não é coincidência.
Podemos estar no mesmo lugar, no mesmo tempo, e ainda assim em versões diferentes da mesma situação.
Rimos quando essa diferença fica visível demais para continuar ignorada,
mas ainda suportável.
Rimos em reuniões que falharam antes de começar. Rimos em conversas onde cada um já está noutro lugar. Rimos quando alguém diz algo que sabemos frágil, mas demasiado caro para desmontar ali.
Rimos, às vezes, para manter a situação habitável.
Também falhamos aí.
Rimo-nos quando queríamos dizer alguma coisa com precisão.
E ficamos quando já sabíamos que era tempo de sair.
Confundimos contenção com clareza. E alívio com resolução.
Há situações em que tudo corre tão bem que começa a parecer ensaiado.
A agenda cumpre-se. As intervenções são claras, medidas, úteis.
Ninguém fala fora de tempo.
Ninguém repete.
Ninguém complica.
As pessoas respiram nos momentos certos. As pausas coincidem.
Os olhares alinham-se sem esforço.
Alguém concorda antes da frase terminar.
Outro antecipa a conclusão com ligeira inclinação de cabeça.
As decisões surgem sem fricção. O consenso instala-se com naturalidade.
Tudo parece resolvido antes de ser problematizado.
Nada sobra.
Aqui, o riso demora: quando aparece, vem fora de lugar.
Como se chegasse tarde a uma coisa que já não precisava dele.
Rir é próprio do homem escreveu François Rabelais.
Talvez porque só o humano consegue sustentar duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo.
E, por um instante, não escolher entre elas.
Rimos, às vezes, nesse intervalo.
Mas quando o riso termina,
em que versão ficamos?