Revolta contra a Unir sobe de tom a sul do Douro

Rede Unir

Uma mão cheia de palavras bonitas e de números gordos prometia, há precisamente um ano, uma rede de transportes públicos na Área Metropolitana do Porto “repensada para facilitar a sua vida”, com uma oferta de 439 linhas e de 672 autocarros para servir 17 municípios que, ”agora, estavam mais unidos e ligados de uma forma única”.

Os slogans associados à rede Unir, “única nos equipamentos, única nos horários e única na conveniência”, projetavam uma “frota de autocarros renovada, mais veículos em circulação, tempos de espera mais curtos e área de cobertura alargada”.

A luz ao fundo do túnel para milhares de passageiros utilizadores de transportes públicos apagou-se rapidamente. Para a Unir, o prometido não é devido! E as queixas que acompanharam o arranque do novo serviço aumentaram ao longo do ano, sempre no gerúndio e de forma inversamente proporcional às promessas.

Vila Nova de Gaia é um bom exemplo da desilusão dos passageiros. Face à sucessão das queixas e reclamações, O Cidadão regressou àquele passeio frente à estação do metro D. João II, onde se amontoava, de forma indigna e selvagem, uma multidão de passageiros à espera de um autocarro que tardava em chegar ou, pior ainda, não chegava. Tal e qual o comboio espanhol:”¡Llega cuando llega, si llega!” O leitor recorda-se, certamente!

Um ano volvido, nada melhorou. Os idosos e as pessoas com mobilidade reduzida ou condicionada continuam de pé, sem ter onde se sentar ou, então, os que conseguem, sentam-se nas soleiras das entradas dos prédios e das montras ali instaladas; as crianças agarradas pela mão dos adultos, face ao perigo de estarem a uma tangente de uma avenida com tráfego permanente; os autocarros acumulam-se uns atrás dos outros a obstruir o tráfego e a alargar o caos à mobilidade no centro do concelho.

Falta de abrigos, de postaletes com números das linhas, de horários, de um sinal informativo de que se está numa paragem de autocarro. E as pessoas continuam de pé a ocupar totalmente um passeio, desviando os peões para a rua.

É uma tristeza isto da Unir. Veio mas é desunir tudo e todos! É uma confusão, nunca vem a camioneta a horas e chego sempre atrasada ao trabalho. O meu patrão já olha para mim de lado!”, afirma Fátima Costa, utilizadora do autocarro com destino a Espinho. A sua amiga, Maria Clara, reforça: “Não se aguenta tanta incompetência, tantas falhas…é demais!”.

A propalada mudança para melhor surpreendeu para negativa: “Mudamos para pior, muito pior. Há menos camionetas, os horários não são certos, não são cumpridos… É uma bandalheira nunca vista!”, realça António Teixeira Morais, utente diário de transporte público para Perosinho, uma freguesia do interior do concelho.

A prometida frota “renovada” e “reforçada de autocarros tendencialmente amigos do ambiente” ficou pelo caminho. As camionetas são usadas, decrépitas, caducas, vindas sabe-se lá de onde, e algumas exibiam até há pouco tempo mensagens em sueco, tipo Ej i trafik. Os autocarros “não têm o mínimo de condições”, aponta Álvaro Soares, elencando as “campainhas que não tocam, portas que não abrem nem fecham, assentos que que andam de um lado para outro”…

A mediocridade é extensível ao desempenho dos motoristas. Recrutados entre imigrantes de diferentes proveniências, não raro desconhecem os percursos, os horários e, sobretudo, a língua. Não é difícil perceber a falta de formação para exercer as suas funções. Mas é difícil a informação e a comunicação. Este constrangimento atinge, por vezes, dimensões indesejáveis: “A gente pergunta ao motorista para onde vai a camioneta, porque não há nada a informar, e ele não sabe ou não responde. Nunca vi semelhante, mas ele não tem culpa, coitado!”, realça Silvina Machado, utente do autocarro com destino a Canedo.

Face ao número de queixas e reclamações contra a nova rede de transportes públicos, a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) recomendou à Área Metropolitana do Porto (AMP) que retire “as devidas ilações” acerca das queixas dos passageiros da Unir, afirmando que, num ano, não recebeu qualquer denúncia vinda da entidade metropolitana.

O regulador económico do setor disse, em resposta a questões da Lusa, que “elabora regularmente relatórios tendo por base as reclamações registadas” e “tem acompanhado a operação da Unir” através das queixas dos passageiros, referindo que, apesar do relatório deste ano ainda não estar concluído, “no primeiro semestre de 2024 foram registadas 71 reclamações” na AMP.

Espera-se que, com base nessa informação a AMP, possa retirar as devidas ilações no que se refere ao cumprimento ou incumprimento contratual e lançar mão dos mecanismos ao seu dispor para os corrigir“, avisa a Autoridade.

Refira-se, a propósito, que o presidente do Conselho Metropolitano do Porto e da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, afirmou, na passada sexta-feira, em declarações aos jornalistas, que, se não houve “uma melhoria mais acentuada“, tal deveu-se às impugnações em tribunal ao concurso da Unir por parte dos anteriores operadores, que fizeram as novas empresas falhar o prazo de “dois concursos públicos de financiamento a fundo perdido para autocarros novos“.

Maria Paulo (texto e fotos)