Resposta pessoal para a crise

O português típico, que antigamente discutia o Benfica ou o preço do bacalhau, encontrou agora uma nova trincheira: o capô do carro. De um lado, os resistentes do gasóleo, que olham para uma bomba de combustível com o masoquismo de quem paga um resgate por um refém; do outro, os pioneiros do silêncio eléctrico, que circulam com a sobranceria de quem descobriu o fogo, ignorando que o preço desses electrodomésticos com rodas atingiu valores pornográficos, dignos de um T1 no centro de Lisboa. É uma guerra aberta de vizinhança, alimentada por incentivos estatais que parecem esmola e por facturas de oficina que asfixiam qualquer réstia de dignidade.
No fundo, é o nosso clássico complexo de exibicionismo: uns ostentam o ronco do motor como se fosse virilidade, outros exibem o símbolo da bateria como se tivessem ganho um Nobel da Ecologia, enquanto ambos são espremidos por marcas que decidiram que um veículo utilitário deve custar o equivalente a uma vida inteira de trabalho escravo…
Mas o que realmente brilha nesta contenda não é a mecânica, é o nosso deserto de solidariedade. Somos o povo que chora a crise em uníssono na mesa do café, mas que, ao primeiro sinal de aperto, atropela o vizinho para encontrar a “fuga” mais próxima. Mal o combustível sobe, corre-se para o eléctrico não por consciência planetária — que o planeta, coitado, sobreviveu aos dinossauros mas dificilmente sobrevive à nossa hipocrisia —, mas para dar o “nó cego” ao sistema.
O problema é que, nesta corrida desenfreada pela alternativa individual, esquecemos o colectivo. Cada um tenta salvar o seu couro com uma manobra de diversão, seja a carregar o carro no posto gratuito do centro comercial enquanto finge que faz compras, ou a atestar o depósito na fronteira com o ar de quem comete um crime de lesa-pátria. No final, ficamos todos parados no mesmo trânsito, a olhar de lado uns para os outros, unidos apenas pela certeza de que, em Portugal, a única energia que nunca esgota é a capacidade de cada um tentar escapar sozinho do barco que está a afundar para todos.