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Segunda-feira, Abril 15, 2024

Reportagem- Casa Museu Silvestre Raposo mostra a arte e a cultura no interior do Alentejo

Nos tempos que correm é, muitas vezes, na contracorrente que se constrói o futuro,  preserva-se o presente e recorda-se o passado. Num Alentejo interior, desertificado, o mestre Silvestre Raposo não cedeu à tentação das grandes urbes, ficou, resiste e põe em marcha um projeto cultural - a Casa Museu com o seu nome. Pode ser visitada na freguesia de Vila Nova de São Bento, no concelho e Serpa. Além da pintura e escultura, outros eventos relevantes aí vão tendo lugar.

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Silvestre Raposo não nasceu artista – trabalhou bastante para isso – mas quase, pois “o gosto pelas artes é desde sempre, em criança, na escola, já se notava.”-diz
Artista plástico, 70 anos, um alentejano de “alma e coração” como diz o povo, que cria, promove e investe na terra onde nasceu. “O Alentejo é sempre o que tenho na alma e que me transmite a minha forma de ser e de pensar. É a minha identidade.”

Quando terminou os estudos secundários, em Moura, entrou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. E, a partir daí, calcorreou o mundo artístico, levando sempre o Alentejo na alma e a arte nas suas mãos.

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As influências na minha pintura são diversas, pois desde jovem fui seguindo um processo de pesquisa entre mestres como Goya, Picasso, Dali, Kandinsky para perceber as suas formas de criação.” – refere Silvestre Raposo. Porém, o seu processo criativo não se cinge à pintura. “A escultura também foi um processo que fui desenvolvendo.

Sabendo nós que ganhou prémios em concursos nacionais de escultura, pintura e fotografia, estamos perante um artista, no verdadeiro significado da palavra.

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Silvestre Raposo, além de professor no ensino superior, foi um dos convidados para a Expo “Dos 25 Anos do 25 de Abril”, em Paris e dos noves livros editados, dois foram apresentados nos encontros de poetas da Galiza.

Das cerca de duas dezenas de obras em espaços públicos, há duas que chamam a atenção de uma forma particular: o monumento dedicado à Paz na Palestina, na Vidigueira e o que é dedicado à Paz entre os Povos, em Messines.


Casa Museu

A produzir obras ao logo de tantos anos, chega a fase da vida em que tem de saber-se qual a melhor forma de guardar e divulgar. O mestre Silvestre Raposo achou que a sua terra-natal seria o lugar certo. Num imóvel cedido pela Câmara Municipal de Serpa, em Vila Nova de São Bento, instalou a Casa Museu. Foi no dia 23 de abril de 2022.
A ideia surge no sentido do património artístico, neste caso o meu acervo, ser posto à disposição da população por ser um direito que devemos preservar.”

Mas os trabalho expostos – muitos – não são apenas de Silvestre Raposo. “Pois não, são meus e de outros autores como Gil Teixeira Lopes, Armando Alves, Miguel Cargaleiro, Virgílio Domingues Luís Dourdill, João Hogan, Alberto Gordillo, Maria João Franco, João Duarte, Isabel Sabino, Sérgio Sá, Ricardo Paula, António Inverno, Alberto German, entre outros.”

Não é comum uma freguesia do interior do Alentejo, perto da raia, ter uma oferta cultural com este valor Silvestre Raposo entende, para bem das pessoas e do lugar, que a arte tem de chegar a todos.
É de importância vital para a divulgação das artes, autores e obras. Para a freguesia e para o concelho, do ponto de vista do turismo cultural é valioso. A freguesia passa a ser conhecida em todos os meios das artes e atrai artistas e pessoas em geral que, de outro modo, nunca aqui viriam.”

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O espaço museológico é o coração da Casa Museu. Mas muito mais se faz por ali. “ As exposições temporárias na galeria de Arte e o Prémio Nacional de Pintura e respetiva Gala para entrega dos prémios – serve também para homenagear pessoas naturais da freguesia que se notabilizaram, como no anos passado o encenador Filipe La Féria, a cantora Luísa Basto, o general Manuel Monge, o professor Machado Caetano, os atletas Rita Borralho e Ricardo Paixão e o professor David Monge da Silva.”

Um espaço cultural que foi pensado para a população local e que serve, plenamente, esse propósito. “Realizamos oficinas de arte para as crianças das escolas, por ser importante o contato com a arte desde cedo. Fazemos, também, apresentações de livros e pequenos recitais, onde não falta o Cante Alentejano.”

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Em agenda, para 2024 está uma exposição coletiva “de todos os amigos que se associaram a este nosso projeto e, depois, a realização do Plano de Atividades, com várias exposições e o Prémio Nacional de Pintura.”

O museu está aberto todos os dias (menos à segunda-feira) e a entrada é gratuita.

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Arte: que futuro?

O mestre Silvestre Raposo, com o seu saber e experiência, teme o futuro de iniciativas artísticas, principalmente no interior e no Alentejo. Apesar de ser um resistente, não deixa a racionalidade de lado.
O futuro das artes e da cultura em Portugal é incerto e indefinido, não há um caminho traçado nem um pensamento filosófico que vá gerar um movimento criativo.”
E os financiamentos são um pouco dúbios e, às vezes, desequilibrados…
Somos poucos os que realizamos eventos artísticos dignos desse nome. Há financiamentos enormes para exposições insignificantes e até degradantes e não há para as entidades que dinamizam e movem os artistas na sua generalidade.”
E o “seu” Alentejo tinha de ser referido…
“No Alentejo há autarquias que continuam a promover eventos de carácter artístico e a apoiar, como é o caso da nossa autarquia. Quanto ao futuro, este não me parece ser agradável ao nível geral dos apoios e deveria ser essa a grande aposta, pois é a arte que perpetua as memórias dos povos e um povo sem memória ou sem história, não existe.”

A freguesia

A Casa Museu Silvestre Raposo está instaladas em Vila Nova de São Bento, que pertence à união de freguesias de Vila Nova de São Bento e Vale de Vargo, concelho de Serpa.
O presidente da União de freguesias, Manuel Luís Nunes reconhece a importância desta obra para Vila Nova de São Bento e para as pessoas.
Tem muito interesse para todos, uma vez que a cultura e a arte podem e devem ser vistas como instrumentos valiosos para a formação pessoal, moral e intelectual. É, sem dúvida, uma mais-valia para a freguesia.”

Concordando que a falta de apoios para as artes é uma triste realidade, o autarca sublinha que fazem falta mais iniciativas como a da Casa Museu Silvestre Raposo. “A Cultura tem, sem dúvida, muita falta de apoios. É essencial repensar e alterar, para que haja mais estruturas como esta que tem um papel fundamental para manter a nossa Cultura viva e mostrá-la aos mais novos.”

A Casa Museu Silvestre Raposo contou como a colaboração da Junta de freguesia, através da assinatura de um protocolo para a realização das obras e adaptação do espaço. A Câmara Municipal de Serpa e a Direção Regional de Cultura do Alentejo também apoiaram a instalação deste museu.

Fotos: Coleção Particular de Silvestre Raposo

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