Relatório Preliminar Sobre Adeptos Metafísicos

O futebol ofereceu-nos esta semana uma das mais importantes evoluções intelectuais desde a invenção da estatística defensiva.
As cadeiras vazias deixaram oficialmente de depender da presença de pessoas.
Os adeptos encontravam-se presentes.
Simplesmente não se encontravam nos lugares onde tinham sido vistos pela última vez.
Estavam nos corredores.
A notícia é excelente. Não para o futebol.
Para a humanidade.
Porque resolve uma quantidade impressionante de problemas.
A habitação continua inacessível. Mas as casas estão nos corredores.
O Serviço Nacional de Saúde continua sob pressão.
Mas os médicos estão nos corredores.
A produtividade continua abaixo do desejável.
O crescimento está nos corredores.
A prosperidade encontra-se nos corredores há tanto tempo que já cumprimenta pessoas pelo nome.
O bom senso foi visto pela última vez junto a uma máquina de café.
Ou era um senhor parecido com ele.
Nunca ficou totalmente esclarecido.
A classe média vive nos corredores há tantos anos que já alterou oficialmente a morada fiscal.
Há inclusivamente relatos de um jovem casal que conseguiu comprar casa nos corredores.
Infelizmente foi despejado por um corredor turístico local.
Começo a suspeitar que os corredores são atualmente o principal ecossistema económico do planeta.
Metade do Produto Interno Bruto encontra-se nos corredores.
A outra metade está à espera que chamem a senha.
Ou talvez fosse ao contrário.
Nunca percebi grande coisa de economia.
O mais extraordinário é que a explicação pareceu imediatamente plausível.
Nem sequer porque acreditámos nela.
Porque já vivemos assim.
A resposta está nos corredores.
A encomenda está nos corredores.
A consulta está nos corredores.
A carreira profissional também.
A minha, pelo menos.
O futuro está nos corredores.
A reforma encontra-se nos corredores, embora as últimas previsões indiquem que se deslocou para outro corredor.
Há dias em que até a segunda-feira parece estar nos corredores, à espera que alguém carimbe a autorização para começar.
O que explicaria bastante coisa.
Os adeptos continuam presentes.
Os jogadores continuam presentes.
Os dirigentes continuam presentes.
Os patrocinadores continuam presentes.
As cadeiras permanecem vazias.
Mas isso já não significa necessariamente aquilo que durante séculos pensámos que significava.
Algumas cadeiras estavam ocupadas por adeptos.
Outras por estatísticas.
E umas quantas já se encontravam reservadas para a explicação.
Vinte e dois jogadores correm atrás de uma bola.
Milhões observam.
Milhares discutem.
Centenas analisam.
Dezenas produzem gráficos.
E, no fim, alguém explica que aquilo que vimos não corresponde exatamente ao que vimos.
Não por mentira. Por interpretação.
No fundo, talvez a FIFA tenha prestado um serviço público.
Durante anos vivemos presos à ideia antiquada de que uma cadeira vazia indicava ausência de pessoas.
Hoje sabemos mais.
Uma cadeira vazia pode conter esperança.
Pode conter potencial.
Pode até conter um adepto temporariamente deslocado para uma dimensão adjacente. As possibilidades são infinitas. Entretanto, as cadeiras continuam vazias.
Os corredores continuam cheios.
E a realidade continua a fazer um esforço admirável para acompanhar as explicações.
Se encontrarem a prosperidade, a habitação acessível ou o bom senso, agradeço que avisem.
Tenho quase a certeza de que continuam nos corredores.
Embora, pensando melhor, talvez já tenham regressado às bancadas.
Somos nós que continuamos a olhar para os números…

Criado em IA por Vangugh