Reinventar o Mundo – Por Rui Rodrigues

Sempre acreditei que o verdadeiro empreendedorismo nasce do mesmo impulso que move a História. O impulso profundamente humano de transformar o que existe, de reparar o que foi negligenciado e de reescrever tudo o que o tempo e o poder quiseram eternizar como sendo algo imutável.
Hoje, realizo que é uma inquietação antiga, quase visceral, que habita em todos aqueles que não se conformam com o que lhes é dado e que sentem, dentro de si, a urgência de fazer diferente, de fazer melhor, de deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram.
Se olharmos para a História com a atenção que ela merece e não com a ligeireza dos discursos de ocasião que apenas servem para polir a aparência do progresso, percebemos que ela não é uma sucessão de factos estáticos. É um laboratório vivo de decisões humanas, um espelho das nossas virtudes e das nossas fraquezas, onde se vê, com enorme clareza, o que acontece quando confundimos poder com propósito e crescimento com grandeza.
E o empreendedorismo, se for levado a sério, não é diferente. É o mesmo exercício moral e intelectual de escolher entre o que serve o ego e o que serve o futuro.
Demasiadas vezes, quem empreende ou lidera, fá-lo de olhos fechados à História. Ignora que a matriz cultural que organiza o mundo empresarial é a mesma que definiu e orientou séculos de desigualdade, e que não há inovação verdadeira se continuarmos a excluir das decisões as mesmas vozes que o passado já silenciou.
Olhar para a História com o olhar do empreendedor é perceber que toda a construção humana, seja uma empresa ou uma civilização, vive e morre pela forma como gere a desigualdade.
A História das Mulheres ensina-nos isto com brutal lucidez. Mostra-nos como a exclusão foi disfarçada de mérito, como a obediência foi vendida como virtude e como o talento, quando não correspondia ao padrão dominante, era convenientemente ignorado.
A História e o empreendedorismo partilham, portanto, a mesma exigência. Coragem!
Coragem para mudar o que ainda funciona, mas que já não serve.
Coragem para desacelerar quando a velocidade deixa de ter direção.
Empreender é a afirmação de que nada está concluído, de que o mundo, tal como a História, é uma obra inacabada à espera de quem tenha a coragem de o reinventar.