Recuperação da confiança: só que não.

A sede do PS foi alvo de buscas na semana passada. O PS explicou que o PS não era o alvo. Era apenas o edifício onde estavam as coisas relacionadas com o alvo. Uma distinção muito portuguesa. É como dizer que a cozinha não ardeu. Apenas o fogo escolheu desenvolver a sua atividade profissional lá dentro durante algumas horas.

Ao mesmo tempo, o partido apareceu nas sondagens a recuperar confiança. O que criou um daqueles momentos nacionais em que metade do país grita “coincidência” e a outra metade grita “claramente não”. Depois aparecem mais oito comentadores para explicar que a coincidência é mais coincidente do que parece, mas menos coincidente do que se pensa. Ao fim de quarenta minutos ninguém sabe o que aconteceu, mas toda a gente concorda que é muito grave. Ou talvez não.

Entretanto o PS percorre o país numa iniciativa chamada “O Governo Falha”. Confesso que gosto da honestidade do título. Tem uma simplicidade rara. Imaginem se todos os partidos fossem obrigados a fazer o mesmo.

O PS organizava sessões chamadas “O Governo Falha”.

A AD respondia com uma conferência intitulada “Sim Mas Herdámos Isto”.

O Chega apresentava “A Culpa É de Alguém Mas Ainda Estamos a Afinar Quem”.

A Iniciativa Liberal alugava um auditório chamado “Se Privatizássemos o Auditório Isto Começava a Horas”.

E o PCP continuava a reunir-se num sítio onde o tempo parou em 1987 e onde uma impressora ainda faz um som que parece um submarino soviético a sofrer emocionalmente.

Mas o detalhe mais bonito da semana foi outro.

Um deputado socialista explicou que certas notícias aparecem precisamente quando o partido está a recuperar confiança junto dos portugueses.

Achei enternecedor.

Porque existe qualquer coisa profundamente portuguesa nesta ideia de que o universo passa o tempo inteiro a conspirar contra o momento exato em que finalmente íamos começar a correr bem.

É uma teoria nacional.

Quando chove no dia da festa.

Quando a internet cai durante a reunião.

Quando o carro avaria depois da inspeção.

Quando encontramos o amor e imediatamente aparece uma gastroenterite.

Portugal inteiro vive numa relação tóxica com o timing.

A certa altura comecei a imaginar o Partido Socialista como uma personagem de Teofrasto. Não o político. O tipo humano.

Entrava numa pastelaria.

Pedia um café.

O café caía ao chão.

O empregado dizia:

“Olhe, caiu.”

E o PS respondia:

“Curioso. Cai precisamente agora que eu estava a recuperar alguma confiança.”

Dois pastéis de nata observavam em silêncio.

Um deles era militante.

O outro estava indeciso.

Lá fora, um reformado lia as notícias enquanto esperava numa fila para resolver um problema criado por outra fila que existia para resolver o problema da primeira fila.

Ao lado dele estava uma comissão.

Atrás da comissão estava uma subcomissão.

Atrás da subcomissão estava um grupo de trabalho.

Atrás do grupo de trabalho estava um documento estratégico para refletir sobre a necessidade futura de criar uma comissão.

E naquele instante percebi uma coisa.

A verdadeira sátira portuguesa já quase dispensa escritores.

Nós limitamo-nos a tomar apontamentos.

Porque há semanas em que o país inteiro parece uma reunião de condomínio conduzida por personagens de Aristófanes, Bergson e Teofrasto, mas com PowerPoint.

 

VERSÃO BD

Criado em AI por Vangugh