Queriam que fosse padre

O meu ensino primário teve início na escola dos Salesianos, em Évora. Passado pouco tempo puseram-me a ajudar à missa de Domingo. Cheguei a casa e a minha avó, disse: “Estiveste muito bem e entregue à tua função com muita fé. Acho que seria bom ires para padre”.

Ouvi a avó e não liguei ao tema porque passados uns meses fugi da escola porque os padres já andavam a dar cabo da minha cabeça. Fiquei desde pequeno a pensar que os padres não seriam aquilo que nos “vendiam”. E, na verdade, ao longo da vida só tive maus exemplos de padres a portarem-se de uma forma contrária a todos os cânones da Igreja Católica.

Num colégio por onde passei soubemos que o padre abusava sexualmente de um dos colegas. Foi um trauma e deixou-me logo a pensar que ser padre não era nenhuma santidade. Um padre faz juramento de castidade. Um padre devia demonstrar que a sua palavra no púlpito era a voz de Deus. Um padre devia ser humilde e preocupar-se fundamentalmente com as necessidades dos pobres. Um padre devia anunciar aos presentes de uma missa quanto dinheiro resultou das esmolas. Um padre devia sempre vestir a sua batina e percorrer as ruas da paróquia para cativar o maior número de fiéis. Um padre devia coordenar a catequese como representante da palavra de Cristo.

No entanto, ao longo da vida, verifiquei e tomei conhecimento de padres que na sacristia tinham relações sexuais com mulheres casadas frustradas e ricas, que ainda por cima, ofereciam prendas valiosas aos padres, depois de nas confissões ficarem a saber as desgraças dessas mulheres.

Fiquei a saber que miúdos que ajudavam à missa, no final, ao irem mudar de roupa na sacristia eram obrigados a fazer sexo oral aos padres. Fiquei a saber que certos padres eram homossexuais e que apenas desejavam jovens para sexo. Passei a ver padres a guiar Mercedes, quando ainda por cima detesto carros Mercedes, porque me fazem sempre lembrar os patos-bravos ou os novos ricos.

Passei a saber que alguns padres tinham habitações paroquiais com todo o luxo e que abusavam sexualmente das mulheres da limpeza. Passei a conversar com padres de grande cultura e seriedade perguntando-lhes por que razão outros padres tinham um comportamento tão execrável. Obtive respostas diversas, mas nada explícitas. Algumas referiam que “todo o homem é pecador”.

Obviamente que em nada me satisfizeram as justificações e fiquei de costas viradas para a Igreja quando enviei uma carta a um cardeal do Vaticano com a responsabilidade de investigar e tomar decisões sobre o abuso de menores. Transmiti ao cardeal que uma figura pública internacional tinha violado uma criança de 12 anos num quarto de hotel. Adiantei ao cardeal as declarações da vítima com todos os pormenores. Pedi ao cardeal na missiva que essa figura pública internacional não voltasse a ser recebida por mais nenhum Papa, por tratar-se de um hipócrita e criminoso. O cardeal não me respondeu e a partir daí virei costas a todos os dogmas da Igreja Católica. Fiquei a pensar que todos frequentavam o mesmo cabaré…

Nos dias de hoje, depois da igreja portuguesa ter reduzido a indemnização a tantas vítimas de abusos sexuais ao longo dos anos por parte de sacerdotes, o que só por si demonstrou que a Igreja Católica não dá grande importância a crimes tão hediondos, o meu choque mental foi de enorme desgosto quando recentemente ficámos a saber que certos padres do Porto, Braga, Guimarães, Barcelos e de outras localidades são gays e mandaram o juramento de castidade às urtigas. Padres que só querem sexo. Que participam, nas casas paroquiais, em orgias onde vale toda a forma de sexo, consumo de drogas, produtos excitantes e alguns ainda pagam bom dinheiro, tirado das caixas de esmolas, aos jovens por quem se apaixonam.

Naturalmente que a minha avó estava enganada. Eu nunca poderia ser padre. No primeiro dia que soubesse que um colega sacerdote tinha abusado de uma criança, abandonava imediatamente o sacerdócio.

Apenas o meu louvor para todos os padres que cumprem a sua teologia e que exemplarmente exercem a sua missão com seriedade e celibato.