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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Quem deve a quem?

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Valdemar Ribeiro
Valdemar Ribeiro
Economista/Empresário/Ambientalista

O Senhor Presidente da República de  Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, lembrou que Portugal devia fazer uma reflexão e auto-crítica sobre a era colonial portuguesa e suas consequências.

Esta questão, proposta pelo Senhor Presidente apenas deve servir de mote para uma reanálise académica do passado português e, naturalmente, todos os cidadãos devem refletir sempre positivamente para não se voltarem a cometer os mesmos erros. Apenas isso.

Para quê haver tanto ruído com esta questão, se há outras questões mais imediatas e difíceis e que urgentemente têm de ser resolvidas?

O erro está feito, mas ainda existem países coloniais ou que desejam ser ainda coloniais ou imperialistas e que, hoje, se denominam neocolonialistas.

A dominação colonial teve e terá por muito tempo consequências graves, de vária ordem, para as novas nações, mas tudo isto só é possível de reparar com uma auto-reflexão e reconhecimento público do erro por parte de todos os cidadãos.

Os humanos atuais, que não mantêm conexões diretas com um passado colonial nem se beneficiam do mesmo diretamente, não podem responder pelos atos de seus antecessores.

Quando alguém nasce, não lhe é perguntado antes se quer nascer, se quer pertencer àquela família, se quer pertencer àquele país ou àquele grupo em particular, assim como a ninguém é perguntado se quer morrer, pois simplesmente morre e os outros ficam.

Se for perguntado a alguém se quer acompanhar o morto ou futuro morto, com certeza ninguém aceitará esta incumbência, por mais importante que possa ser, pois não estamos no tempo dos Faraós. É a lei da vida.

Quer isto dizer que, todos os humanos, são únicos e que ninguém, por norma, pode responder pelos actos dos seus antecessores, esta é a realidade da vida a não ser que alguns cidadãos atualmente ainda continuem a beneficiar diretamente de privilégios coloniais.

Mas pode-se analisar o caso do Brasil, país cujos ancestrais eram e são ainda os índios, denominados donos originais e pioneiros na terra brasileira.

Durante as últimas centenas de anos, milhões de pessoas foram, voluntariamente ou não, para esta terra continental, do tamanho da europa.

Durante as duas grandes guerras na Europa, milhões de europeus emigraram para o Brasil e para outras terras.

Ainda hoje, século vinte e um, continuam a emigrar para o Brasil milhões de pessoas à procura de uma terra abençoada e rica de povo e de natureza e o Brasil ainda tem o maior pulmão do mundo chamado Amazónia.

O brasileiro de hoje, normal, certamente tem a sua nação como o melhor berço.

A América latina, na colonização espanhola, dividiu-se em vários países pequenos e hoje em dia algumas desta nações sul-americanas não sabem quem são nem para onde querem ir.

O Brasil, com a língua portuguesa a servir de elo de união, não se dividiu, por vários motivos, e conseguiu manter sua unidade como nação, unidade como território potencialmente muito rico apesar de por vezes essa riqueza não ser devidamente distribuída ou ficar na mão de alguns, mas isso acontece em muitos países.

O Brasil nação existe graças também à união criada pelo instrumento linguístico denominado “língua portuguesa”, muito importante na comunicação entre os humanos lusófonos e entre outros povos e não se pode dizer que a herança colonial brasileira foi ou é pobre, bem pelo contrário, é muito rica e basta olhar o Brasil situado no patamar das dez mais importantes economias do mundo.

E importante também haver um olhar para o papel que Portugal exerceu na sociedade humana ao chegar com suas caravelas ao Brasil e à América unindo pela primeira vez os povos Australopitecos que originalmente viviam e vivem na África Austral, emigraram para o norte de África, Europa, Ásia e foram viver na América do Norte e na América do Sul.

Portugal, no séc. XIV desempenhou um papel de união e transformou os mares em estradas oceânicas, unindo os continentes Americanos, Africanos e Europeus.

Se houver uma comparação entre estas duas nações, Portugal e Brasil, em vários níveis incluindo-se o político, quem é o mais rico nos aspetos económicos, ambientais e sociais?

Quem é, como nação, que mais beneficiou da herança colonial, do passado colonial?

Com certeza, o grande erro colonial tem de ser reconhecido por todos os países e cidadãos em geral e é preciso haver um esforço para se corrigir no possível o que foi mal feito.

Claro que o passado colonial não deveria ter acontecido, mas a humanidade caminha dessa forma, experimentando, errando, corrigindo erros, e tentando melhorar o que está mal e fazendo melhor.

Não parece ser inteligente nem possível uma cobrança dos prejuízos financeiros coloniais, pois no conjunto geral, o Brasil beneficiou muito mais do que Portugal e quem emigrou ou foi obrigado a emigrar e continua a emigrar para este país, teve e tem a sorte de encontrar uma terra abençoada.

Portanto, não é uma atitude sapiente haver cobranças, financeiras ou outras, dos erros passados, mas os erros culturais podem e devem ser corrigidos desde que haja matéria.

No caso de Angola e Portugal, parece haver uma semelhança com o Brasil e hoje, esta nova nação africana, quatorze vezes maior do que Portugal, extremamente rica em natureza, pode ter um papel económico e ambiental de relevo no conjunto das nações e, naturalmente, pode beneficiar-se com isso, apesar de um passado colonial errado e uma independência mal construída por Portugal e seus líderes à época, 1975.

Ter uma atitude mais sapiente, obriga à compreensão desta envolvência e reconhecimento das consequências, buscando-se as mais positivas e caminhando para o futuro que vem aí e que não vai ser fácil e é preciso muita união entre os povos.

Quem deve a quem? Deve ser uma questão respondida com cautela, com pragmatismo, com sapiência, com um olhar profundo para o passado e seus erros e para o presente e para o futuro, seus erros e acertos, e reconhecendo que, apesar de tudo, houve e há muitos benefícios para estes novos países desde que bem administrados e bem distribuídas as suas riquezas.

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