Que compensador e edificante é deixar um pouco de nós nos outros! – Por Rosa Fonseca

Hoje, apenas passamos por lugares que nunca serão casa. Passamos por eles a correr. E nesse corredor afunilado também não damos pela presença do outro. Nada de nós fica, nenhum sentimento ou emoção lhes imprimimos. São meros pontos de passagem, sem apropriação. Acabamos, então, por viver em não-lugares. E o paradoxo, é que só partilhamos “passagem” sem, na verdade, nos envolvermos. Somos meros anónimos. Estamos sempre em registos opostos. Não deixamos nada de nós e não recebemos nada dos outros.

Somos nesta indiferença, o desapego que imprimimos aos lugares e aos outros.

Somos pontos negros na parede incolor.

Raramente ficamos tempo suficiente para, efetivamente, conhecer aqueles que nos rodeiam. O nosso não-envolvimento, intui-nos ao desconhecimento do seu mundo interno. Todas as relações precisam de investimento e tempo. Sem este entendimento e porque somos seres sociais, como é que vamos funcionar em grupo sem criar laços e segurança.

Todos procuramos ser bem-sucedidos, mas na verdade blindamo-nos de receio que os “outros” obtenham algo à nossa custa e alcancem o nosso verdadeiro “eu” sem que haja reciprocidade. Torna-se, então, difícil existir socialmente sem que ninguém se aproveite disso e gerir os relacionamentos quando não sabemos ao certo o que os outros realmente querem de nós.

Na sequência das inseguranças erguemos um muro que nos impede, por exemplo, de criar uma amizade. Uma vez que esta se baseia em respeito mútuo e não assumir esses mesmos fatores cria entraves e desconexão. Logo, para se desenvolver uma amizade, uma aproximação, é necessário que as pessoas realmente se entreguem e partilhem momentos de cumplicidade e conhecimento do próprio “eu”.

Esses momentos traduzem-se em criar laços que nos permitam ser com o outro e com o que nos rodeia; revelarmos o que há de mais verdadeiro em cada um de nós. Os lugares são essenciais para conhecermos outras pessoas e interagirmos por forma a ser possível partilhar referências sociais e pessoais intrínsecas.

Bem sabemos que o impasse de uma vida a correr não nos deixa caminho para que a amizade e a convivência aconteçam e os laços se fortaleçam.

Às vezes, preferimos alimentar e até desenvolver um muro intransponível de desconfianças e inseguranças.

Mas há, em cada um de nós, uma certeza: enquanto seres humanos, não existimos sozinhos e se a amizade for necessária para nos completarmos, então vale a pena o esforço e o risco.

Vale a pena a empatia, a autenticidade, a partilha e a interação; ser com os outros – um elo afetivo e dinâmico.

Seremos sempre os lugares onde nos encontramos e partilhamos emoções e sentimentos.

Que compensador e edificante é deixar um pouco de nós nos outros!