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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Quatro décadas nesta especialidade é passar por muitas metamorfoses – Por Gladys Nunes

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Gladys Nunes
Gladys Nunes
Enf.ª Especialista em SMP

Lançado o desafio: “escrever sobre a minha atividade profissional”.
Desafio aceite, lancei-me em pensar o que escrever, vou tentar … não, vou fazer.

Vou expressar a minha atividade profissional de 40 anos contínuos em internamento de Saúde Mental e Psiquiátrica, o que não é fácil. Será uma opinião demarcada na primeira pessoa, com muita objetividade e subjetividade.

Subjetividade no sentido que são as minhas emoções que descrevem o que senti nesta passagem profissional. Não escrevo com ideias feitas, escrevo com o coração o que penso, senti e sinto sem enganar a realidade. Muitos momentos de indignação, desânimo, desesperança e revolta, mas também momentos caricatos, histórias incontáveis, umas que terminam bem outras desastrosas.

Nesta especialidade tudo é imprevisível, triplamente ingrata, o parente pobre da medicina. Doença de diagnóstico difícil, dúbio, pouco preciso, que vai acrescentando degradação e deterioração, principalmente quando tudo carece. Pessoas a quem a vida não sorriu, vazias, ocupadas por imensos fantasmas e muitos traumas. O individuo não se sente doente, rejeita, esconde, foge, sendo que os profissionais de saúde são, na maioria dos casos, carrascos. Nesta área não há rotinas. Aqui não se pode ir e vir para trás em busca de outra profissão nem em busca de segurança.

Dizer que houve evolução será um paradoxo, mas sim, a SMP teve evolução positiva e para isso contribuíram os novos fármacos, as condições de trabalho e as equipas multidisciplinares mais alargadas, mais bem preparadas e mais presentes.

Mas a parte negativa veio com a falaciosa integração dos doentes deste foro nos
hospitais gerais que não passou de uma desintegração, desagregação na sociedade.
Preconizada por teóricos, economicistas, sonhadores humanistas que desumanizaram completamente a doença mental e os seus portadores de longa data, os chamados “crónicos”, palavra agora “proibida”.

Foram desmantelados os grandes hospitais psiquiátricos de renome, conhecidos como depósito de doentes e também os chamados Centros de Saúde Mental, sendo os doentes distribuídos por pequenas alas, com internamentos múltiplos em porta giratória.
E assim foram sobrecarregando também IPSSs e todo o tipo de instituições mal
subsidiadas, de parcos recursos humanos e poucas infraestruturas tal como famílias
envelhecidas e doentes, sem recursos, obrigando-os a esforços cruéis, muito além das
suas capacidades e potencialidades.

Perderam-se todas aquelas infraestruturas de apoio à ocupação, fora do ambiente
hospitalar ao ar livre, como cultivo de pequenas hortas e pomares, criação de
galináceos, campos de jogos e as salas de olaria, cestaria, pintura, salão de beleza,
cozinha, lavandaria. Tudo locais onde os doentes residentes se ocupavam. O ambiente era “familiar “ e esses mesmos residentes (os chamados crónicos) estavam estabilizados e a medicação era extremamente reduzida.

Mudaram-se as terminologias para linguagem mais moderna, mais adequada ao
Sec.XXI, à tecnologia, que aplicada, pouco diz do doente. Porque o essencial foi mudado, mas não corrigido.

Toda a psiquiatria ficou, durante muitos anos, reduzida a pouco mais que um serviço
igual a tantos outros dentro de um hospital geral (um corredor, vários quartos, uma
sala de refeições, uma copa e stocks e uma terapia ocupacional integrada na mesma
ala do internamento, frequentada por alguns doentes do internamento pouco mais
que uma hora de manhã e outra à tarde e conjuntamente um Hospital de Dia).

Finalmente, criado o serviço comunitário que tem tido um avanço extraordinário com o
crescimento de equipas e um apoio alargado a todas as áreas estipuladas do distrito.
Um trabalho que pouco se vê, mas que tem resultados a curto, médio e longo prazo.
Resta dizer, que ter perfil é importante, mas mais importante é a adaptação. Quem
não tem capacidade de adaptação e versatilidade não sobrevive a trabalhar nesta área.

Por isso, a importância de ter uma equipa mista com um núcleo aglutinador,
acutilante, resiliente e resistente. Sempre aberto a mudanças e aprendizagens que
percorrem a linha do tempo e acompanham o desenvolvimento.


Trabalhar quatro décadas nesta especialidade é passar por várias metamorfoses. Fases em que a deceção é tão grande que se pondera partir e só não acontece porque os
profissionais mantém a sua própria saúde mental com inteligência, dedicando-se
paralelamente a outras áreas que vão desde o associativismo, ao desporto, às artes
(canto, música, decoração, organização de eventos), à escrita, enfim… atividades que nos protegem e nos dão vida para lá do confinamento de um corredor fechado.

É necessário em cada um de nós, capacidades para suportar as adversidades, é preciso
saber adaptar-se a situações difíceis, fontes significativas de stress constante,
flexibilidade, persistência, autoconfiança, habilidades e competências. Mas mais
importante é ter duas grandes competências que se apuram com o tempo, empatia e
comunicação. Saber estar no lugar do outro, perceber o silêncio, o olhar, os trejeitos e
responder adequada e atempadamente. São tarefas que exigem perspicácia, disponibilidade, vontade e muita aprendizagem.

É importante utilizar e reforçar o interior para se recuperar sem danos. Ser resiliente e
ter uma conduta sã num ambiente insano é uma tarefa árdua. Superar sem
desmoronar para preservar a saúde mental é essencial.
Ir em frente em busca de conhecimento e crescimento foi o lema. Foi esse
comprometimento comigo que me fez continuar. Desafios que temos de ultrapassar de
forma positiva, porque quando não conseguimos mais mudar uma situação temos que
ser nós a mudar, a ceder.

Tal como afirmava Viktor Emil Frankl (psiquiatra austríaco prisioneiro num campo de
concentração que escreveu o livro “Em Busca de Sentido”):
Quem tem um porquê enfrenta qualquer como”



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