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Domingo, Maio 19, 2024

Quarto de paredes brancas e a caixa do correio – Por António Ferro

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Acabei de colocar mais um cartaz nas paredes brancas do meu quarto…
E sabem porquê?
Porque, devido ao fraco poder pecuniário dos meus pais, o meu quarto passou a pertencer aos hóspedes que, embora com uma pequena importância financeira de aluguer, usufruíam dele – do meu quarto!

Os anos foram passando, os cartazes amarelando e, quando finalmente o quarto ficou livre – só para mim –, já era tarde… Troquei-o por um apartamento de um casamento muito jovem…

Passaram-se mais de trinta anos e há dois dias, naqueles dias em que o sono não consegue cumprimentar o sonho, estava eu a olhar para as paredes do meu quarto, brancas e vazias e pensei:
– Agora já posso! (isso mesmo)
Então fui ao meu baú e tentei, através de fotos, de cartazes e até de diplomas, melhorar o aspeto do meu quarto. (tu já contaste ao teu psiquiatra a tua fixação em cartazes? Quando eras professor quiseste decorar as paredes da aula de música, ficaste frustrado durante anos por não colocares os cartazes nas paredes do teu quarto que afinal não era teu… Convém tentares entender esse teu apego…).

Na penumbra do amanhecer, quando apenas um dos nossos olhos quer dar os bons dias à vida, é bom reconhecermos não só as imagens, mas as recordações que fazem o catálogo da nossa vida.
Estou muito contente!
Tenho finalmente um quarto e tenho finalmente as minhas paredes brancas e vazias com pedaços da minha vida, com pedaços das minhas alegrias, tristezas e incertezas… Tenho finalmente as paredes brancas e vazias do meu quarto, com pedaços de mim!

Quando era jovem, o primeiro ato da manhã era descer as escadas e ir ansiosamente abrir a caixa do correio em busca de uma carta da namorada. Depois, lia-a uma meia dúzia de vezes e prontamente respondia. Às vezes, com uma pétala de rosa dentro do envelope, ou perfumava as folhas, ou incluía aquela foto que era desconhecida da minha apaixonada. Primava na caligrafia, embora no entusiasmo da escrita, atropelasse as letras, razão para um encontro extra. A carta era passada a pente fino na mesa do café e eu clarificava as palavras de mais difícil compreensão.

O meu coração apaixonado jubilava e eu esforçava-me por deslindar no dicionário sinónimos (ainda hoje o faço), as palavras mais adequadas, ao meu pensamento/sentimento.

Com a vinda da Internet, e com o aparecimento do correio eletrónico, já não desço escadas, mas continuo com a mesma ansiedade, procurando no correio eletrónico, mas aí não é a mesma cousa. A carta, nós guardamos numa pasta, ou numa caixa, e de vez em quando lá vamos nós lê-la repetidas vezes. Obviamente que podemos imprimir o e-mail, mas aí falta a caligrafia… Na caligrafia existe o cunho pessoal e pela forma como as letras estão orientadas, a sua inclinação no papel, podemos decifrar muito do estado de espírito da pessoa que escreveu.

Depois há outra situação muito importante que é abertura do envelope e o seu rasgar apressado. A rapidez e a avidez com que desfazemos o envelope, com o nosso olhar inclinando-nos rapidamente para as primeiras frases da folha.

E os postais? As nossas melhores recordações das férias e dos locais paradisíacos que percorremos. O prazer de escolher o postal adequado para o familiar ou amigo que, de certo, lhe irá agradar! Nas noites de Inverno, lá esmiuçamos nós no “baú” das recordações e, apenas por visionarmos os postais, as memórias fazem uma viagem aos locais que visitámos…

Nos últimos anos de vida da minha mãe, mantinha uma correspondência com ela semanal. Mas com a sua partida, vou pedir a um familiar ou amigo que se queira corresponder comigo.

Já estou farto de apenas receber cartas das finanças, dos bancos, das prestações e dos advogados, caramba!
Assim, nem dá vontade de abrir a caixa do correio…


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