Quando o ruído mata o socorro


Há serviços que não admitem leviandade. O 112 é um deles. Não é um número qualquer, não é um atalho para resolver os pequenos incómodos do quotidiano, nem um balcão improvisado para pedidos completamente absurdos. É, ou deveria ser, a última fronteira entre a vida e a morte.
Saber que três em cada quatro chamadas realizadas para o 112 não existir é muito mais do que um dado estatístico preocupante — é aquele retrato cruel de uma sociedade que perdeu o sentido de limite, de responsabilidade e, em muitos casos, da sanidade cívica. Quando um serviço crucial é assim aviltado, não estamos perante uma má utilização: estamos sim, perante uma falha da ética colectiva.
Enquanto alguém se lembra liga para perguntar se pode levar o carro e deixá-lo mal estacionado, outra pessoa tenta explicar, entre palavras cortadas, que o pai caiu no chão com sinais de AVC. Enquanto um operador perde minutos a esclarecer que o 112 não serve para chamar um táxi, uma mulher entra em trabalho de parto numa estrada secundária. Enquanto se atende uma chamada feita por brincadeira, um idoso espera por socorro depois de uma queda que lhe roubou a mobilidade — e, muitas vezes, a vida.
Estas situações não são hipóteses remotas. Aconteceram. Continuam a acontecer. E acontecem porque o sistema, sobrecarregado por ruído, perde capacidade de resposta no momento certo.
Cada chamada indevida ocupa tempo, recursos e atenção. Cada pedido absurdo empurra para trás uma chamada real, urgente, e desesperada. E este atraso não é neutro. Mede-se em minutos, mas também nos danos irreversíveis. Um enfarte não espera. Um incêndio não abranda porque a linha estava ocupada. Uma hemorragia não se contém porque alguém achou aceitável ligar o 112 para “tirar uma dúvida”.
Há relatos de ambulâncias mobilizadas sem necessidade, de meios desviados de ocorrências graves, de equipas exaustas por responderem a situações que nunca deveriam ter chegado ao sistema de emergência. Há bombeiros, técnicos e operadores que têm que lidam diariamente com a frustração de saber que, enquanto resolvem o absurdo, alguém pode estar a morrer em silêncio.
Existe, claro, desconhecimento. Falta literacia cívica. Falta pedagogia clara e constante sobre quando devem ligar para o 112 e quando devem recorrer a outras linhas ou outros serviços. Mas não nos vamos enganar: há também a indiferença, o abuso consciente e, em alguns casos, o mais puro desprezo pelo outro.
O acesso gratuito ao 112 não é uma licença para a irresponsabilidade. É um pacto de confiança estabelecido entre o cidadão e o Estado, sustentado pelo pilar de que, quando se liga, é porque não há alternativa. Romper este pacto é fragilizar todo o sistema de emergência e, por arrasto, colocar vidas em risco — vidas anónimas, desconhecidas, mas são reais.
Punir é algo necessário, porque a impunidade normaliza o abuso. Sensibilizar é urgente, porque ninguém nasce a saber. Mas nada disto resulta sem a mais profunda mudança: a recuperação do sentido da responsabilidade colectiva.
O 112 não é um serviço que nos pertence individualmente — pertence-nos enquanto comunidade. Usá-lo mal é prejudicar todos. É atrasar o socorro de alguém que nunca veremos, mas que poderia ser um pai, uma mãe, um filho ou nós próprios.
Quando banalizamos o socorro, banalizamos a vida. E isso, numa sociedade que se quer justa, consciente e humana, deve ser absolutamente inaceitável.
E talvez seja aqui que o choque se imponha. Porque a responsabilidade não pode ser opcional, nem depender do humor, da pressa ou da ignorância confortável. Devia estar inscrita no nosso código genético enquanto cidadãos, tão elementar como saber que o fogo queima ou que a vida do outro vale tanto como a nossa.
Não adianta exigir um serviço eficiente, com uma resposta rápida, ter profissionais competentes e empenhados, se o sistema é diariamente esmagado continuamente por uma falta de respeito. Ligar para o 112 sem necessidade não é um erro inocente — é um gesto que pode custar uma vida. E enquanto não formos capazes de sentir esse peso, esse incómodo moral, vamos continuar a viver numa sociedade onde o socorro é tratado como ruído e onde a tragédia, quando bate à porta, já chega tarde demais.