Quando o Outro sou EU: sete pecados mortais – Por Nuno Moura Brás

Gostava de te dizer bom dia:
Um bom dia tardio, despertado apenas pelo raio de sol que entra – apesar de tudo – por entre as frestas da persiana. Sem despertador, apenas fome, do café com leite e pão com manteiga. Apenas fome de ti, apesar da noite. Dos corpos saciados, dos lençóis enrodilhados: um raio de sol, preguiçoso, atrevido.
O cheiro a ti, o corpo morno, um sorriso aberto.
Que horas são? Que temos a ver com isso, que Big Ben regula as horas do nosso amor, do frémito, do desmando dos sentidos. Destes também, exactamente, e por aí fora, por aí adentro, por mim, por ti, nós. (es)Pera aí ou ´pera lá que já não sei onde começas tu e acabo eu e vice-versa é bom, a gente gosta e pratica e não se preocupa com mais nada. Nem sequer com (o) nada que fará com o mais (nada).
Noto , enquanto saco dois cafés desta máquina de cápsulas, que o pêlo – barba e cabelo – aclararam: cãs povoam-me o frontispício, cabelo cada vez mais ralo, rugas de expressão acentuam(me) a vida, as agruras e alegrias, as batalhas, as conquistas , as estrondosas derrotas que deviam fazer sucumbir, mas por alguma razão , apesar de um corpo povoado de cicatrizes , sobrevive.
Mas é de ti, do teu corpo, que quero falar. Como quem retoma a dança eterna, súbita e brevemente interrompida por um qualquer senão, se não…
Levo-te a chávena quente, sem pires nem colher, apenas o café quente , fumegante e o magnifico cheiro, tentador ( e sim, eu tento – mesmo que não consiga, e isso veio a acontecer vários anos depois, tão vários que não sei quantos, nem isso é para agora nem para aqui – cama, casa – chamado) tu ainda deitada, meia a dormir meia acordada e eu ainda nú tal como tu. Café tomas, ombro despido, o resto também e o cheiro a ti .
O teu magnífico corpo, um monumental parque de diversões, privado, íntimo.
Ops, acordei, décadas depois.
Ressaco do sonho, e raras vezes me apercebo que sonhei, muito menos vezes, das histórias que assolam e povoam o meu sono.
Acendo um cigarro, abro um pacote de leite e saco um cimbalino. (Se estiver a sul, longe desse longínquo e rude “Norte” a que alguns, fora da zona, os mesmos que falam da “Província”, chamam café ou italiana – para mim curto e sem açúcar, sff). Arrogam se , esses , e estes já também, cosmopolitas. sabem eles, e estes “aussi” que por cá, por este país que somos, não somos cosmopolitas? mesmo os mais viajados, , cosmopolitismo fora, lá fora sim, que bom que é, mas por cá nem tanto, “olha para aquela gente, esquisita , não tem jeito nenhum…”.
É o que dá acordar, assim, em devaneio, em plena efabulação- Acordar com sonho presente, a remela antes de abrir o olho, a ideia que afinal é memória. A cama. sempre ela, e o espreguiçar depois que nos repõe para a realidade do dia que se tem de enfrentar.
E é neste tempo, a este tempo que se volta, que o dia a dia tem que ser levado: dia após dia, o trânsito, os transportes públicos, o trabalho (sempre ele) que é o cabo dos trabalhos, e o cabo (o rabo ) do fim do mês que aparece cada vez mais cedo – ai meus deus que vou fazer da minha vida…
Passo assim, e então, pois claro, por isso mesmo, do sonho para a realidade.
Sento me por fim, tenho à minha frente a chávena do café, os cigarros mais o cinzeiro e uns livros.
Percorro os sete pecados mortais:
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Soberba: Considerado o mais grave dos pecados, associado ao orgulho e à vaidade.
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Desimportantisa, nada, nem tu és assim tão importante. Não te deixes ir pela fogueira das vaidades. Para mais mais explanaçóes, ler alexandre o´neil
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Avareza: A ganância e o apego excessivo a bens materiais.
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Há opções a fazer: não descures o bem-estar, especialmente se tem descendência. Não te vendas, no entanto, dez reis de mel coado. O “barato” pode sair te bastante caro. tão caro que nunca o poderás pagar. Claro que há sempre a possibilidade de fazer um pacto com o diabo: para mais, ler Fausto.
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Luxúria: Desejo sexual descontrolado ou desordenado.
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Aproveita.
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Peca, muito, como te aprouver, enquanto fores capaz, o castigo virá inexoravelmente com a idade. Por muito ou pouco que (abuses da luxuria), não será Deus a castigar te. Será o tempo, o corpo e a idade: ouve o i cant get no satisfaction ou se fores dado mais dado a leituras tenta o Óscar Wilde.
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Inveja: O desejo de ter o que os outros têm ou sentir desgosto pelo sucesso alheio.
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O mal de nós, o execrável. Menos ego e mais severidade. Não leias os Lusíadas, apanha só o verso final…
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Gula: O consumo excessivo de comida ou bebida.
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Se achas que sim, se te apetece, abusa: lembra-te do colesterol e dos diabetes. já há medicação . consulta o médico e v
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lê a cozinha canibal.
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Ira: O ódio ou raiva descontrolada, com desejo de vingança.
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Se a causa é justa, não poupes, não te poupes. Se, ao contrário, brandes a ira e és desacertado faz penitência e silêncio: Leonard Cohen para ouvir.
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Preguiça: A falta de vontade, a ociosidade e a falta de esforço, incluindo a acídia (tristeza espiritual).
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Abusa, se tens uma súbita vontade de fazer espera: a vontade passa. Tens o resto da vida para seres um modelo de actividade. Experimenta Fernando Pessoa:
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Liberdade
“Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…” -
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Ou não faças nada disto e vive como entenderes, ainda será melhor. Eu faço o mesmo. Por vezes, o Outro sou EU. Salvé.