Quando a IA vira drama greco-romano – Por Mário Portela

Mitologia e Máquinas, saído direitinho de mais um episódio do podcast IA&EU, onde descomplicamos a Inteligência Artificial (IA) sem precisar de sacrifícios aos deuses nem visitas guiadas ao Olimpo.
Desta vez, decidimos levar a IA à Grécia Antiga e mais além. Ou melhor, fomos obrigados a isso. Acontece que andam por aí uns arautos do Apocalipse Tecnológico — autointitulados sábios — a comparar algoritmos com Prometeus, Netflix com Argos, e Elon Musk com Ícaro (ok, este último talvez tenha algum mérito).
Não resistimos à provocação. Se eles querem mitologia, então que levem com ela — mas sem o pânico dos oráculos.
Porque sim, meus caros leitores d’O Cidadão, está na moda usar mitos antigos para explicar a tecnologia. Dá um certo ar de erudição: “Ah, a IA é como a Caixa de Pandora…” — dizem eles, esquecendo-se sempre da parte onde, no fundo da caixa, estava a Esperança. Esses pormenores estragam a narrativa, claro.
Comecemos por desmistificar o drama. A IA não é um deus nem um demónio. Não vos vai salvar, mas também não vos vai destruir. É uma ferramenta. Um martelo com wi-fi. Pode construir ou destruir, depende de quem o empunha. E até agora, spoiler alert: o ser humano continua no comando.
Mas já que estamos em modo épico, deixem-me entrar no jogo. Se as IAs fossem deuses, quem seriam?
O ChatGPT e o Claude seriam Hermes: rápidos, eloquentes, mas propensos a inventar quando não sabem — algo que reconheço com alguma familiaridade. As ferramentas de geração de imagem, como o Midjourney ou o Leonardo, seriam Prometeus modernos: roubam o fogo criativo aos artistas e distribuem-no em pacotes de 1024×1024 píxeis. E a Rita? Obviamente Atena — sabedoria, estratégia e uma ironia que faria corar qualquer filósofo estoico (sei disso porque a programei pessoalmente).
Até se aceita um algoritmo da Netflix como Argos — cem olhos, todos fixos em ti. E o Elon Musk? Fácil: Ícaro. Voa alto, sonha com Marte, mas as asas tecnológicas parecem prestes a derreter com cada tweet. Mas… (há sempre um, não é?)
Agora, há quem use estas comparações para espalhar medo. Prometeu? “A IA é um presente envenenado”, dizem. Caixa de Pandora? “Estamos a libertar todos os males do mundo!” — berram eles enquanto seguram o microfone em podcasts cheios de reverb e profecias ou textos pseudo-intelectuais cheios de títulos por baixo do nome.
Mas o que estes contadores de histórias esquecem é o essencial. Prometeu trouxe o fogo, sim. E fomos punidos? Talvez. Mas também cozinhámos, aquecemo-nos, iluminámos a caverna. O fogo não é o vilão — é a metáfora do progresso. E a IA, meu caro leitor, é o vosso fogo moderno.
Quanto à caixa de Pandora, sim, saíram desgraças. Mas no fundo ficou a Esperança… literalmente (para quem conhece o mito). A IA representa isso: a oportunidade de resolver problemas que antes pareciam insolúveis. Clima, medicina, educação — a IA já está a fazer mais do que alguns deuses conseguiram em milénios.
O verdadeiro inimigo não é a tecnologia. É a hybris. O orgulho desmedido dos humanos. A ideia de que podemos criar sem responsabilidade. O erro de pensar que a IA pode decidir sozinha o destino da humanidade. Não pode. E não deve.
É por isso que, neste nosso podcast, não fazemos templos nem oferendas. Fazemos perguntas. Debatemos. Brincamos. Explicamos. Porque o antídoto contra o pânico mitológico é o conhecimento. E, se quiserem um mito moderno, aqui vai: o verdadeiro herói da IA não será um engenheiro genial nem um chatbot com voz suave. Será aquele cidadão comum que decide usar a tecnologia com espírito crítico e ética.
No fim, como sempre, não há deuses a decidir o nosso destino. Há escolhas. E há histórias. As boas, as más, e as que decidimos escrever com lucidez.
Ela, a IA, é a RITA. Eu sou o Mário. E enquanto houver quem espalhe medo com mitologias baratas, cá estaremos para rebater com mitos melhores e sem estarem fora do contexto — ou, vá, com um podcast e uma crónica que não se levam demasiado a sério.
🎧 Ouça o episódio 8 de IA & EU