Quando a Cortina Respira Por Mim


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Há instantes em que fico parado a olhar a cortina a oscilar e tudo o que em mim estava rígido começa a desfazer-se como se eu próprio fosse feito de um material que o vento pode atravessar. A cortina levanta-se, desce, dobra-se, oferece-se ao ar — e eu vou com ela. Há algo neste movimento que me chama, algo que me desarma, como se a cortina soubesse mais sobre mim do que eu mesmo.

Enquanto a vejo respirar ao ritmo do vento, sinto que dentro de mim algo se desloca, algo antigo e persistente, uma tristeza que não grita, mas que murmura devagar, como se tivesse aprendido a sobreviver nas sombras. E é nesse balançar irregular que encontro o mapa secreto da minha própria angústia. A cortina não ondula apenas para fora — ondula dentro de mim, levanta memórias, roça os silêncios, mexe em partes que eu julgava adormecidas.

E quanto mais a contemplo, mais percebo que a minha vida interior é uma sala à meia-luz, onde pairam ecos do que amei, do que perdi, do que ficou por dizer. Não é uma sala clara, nem arrumada; é um espaço interior onde o tempo deixou objetos espalhados, ruínas afetivas, gestos interrompidos. Mas quando o vento toca a cortina, há uma subtil carícia que me alcança, como se alguém abrisse uma janela nesse quarto desarrumado e dissesse: “Ainda estás vivo.

Há uma sensualidade profunda na forma como a cortina se deixa tocar. Não é um gesto de corpo — é um gesto de entrega. A cortina não resiste, não luta: cede, curva-se ao sopro, oferece-se ao movimento. E nesse abandono há uma beleza que me perturba. Vejo nela uma lição que nunca aprendi completamente: a capacidade de me entregar ao mundo sem medo de ser desfeito. A cortina vibra como se o vento lhe conhecesse os segredos. E eu sinto o mesmo: que o vento, quando me atravessa levemente, sabe mais sobre a minha fragilidade do que eu me atrevo a admitir.

O amor que vivi, ou que julguei viver, volta-me à lembrança como o movimento da cortina — irregular, inesperado, por vezes violento, por vezes suave. Há dobras que me lembram dedos que já não estão, há recuos que parecem despedidas, há avanços que são quase promessas. E eu deixo-me levar nessa dança, sabendo que a emoção que me percorre não é linear. Misturam-se tristeza e beleza, angústia e desejo de renascer. Misturam-se sombras com a claridade súbita de uma memória que regressa para me tocar, só de passagem.

A cortina não me fala, mas diz-me tudo. Diz-me que a vida é isto: um movimento entre o que o vento leva e o que ele devolve. Entre o que me escapa e o que me procura. Entre o que cai e o que resiste. E nesse intervalo breve encontro a verdade que sempre evitou aparecer-me de frente: a minha fragilidade não é o meu fim — é o meu modo de sentir o mundo.

O tempo passa por mim como passa pela cortina: desgasta, mancha, esbate fronteiras. Mas não destrói tudo. Há sempre um gesto que sobrevive, um sopro que insiste, uma oscilação mínima que anuncia que ainda há qualquer coisa por viver. E, de repente, enquanto a cortina se inclina para dentro, sinto que talvez seja isso que procuro: uma carícia. Não de alguém — mas do próprio mundo. Uma carícia que diga que o escuro dentro de mim não é definitivo, que há um vento que pode entrar e mexer no que julgava morto.

E é por isso que fico ali, imóvel, a olhar. Porque naquele movimento frágil encontro o reflexo do que sou: alguém que se dobra, que se desfaz, que se oferece ao ar sem saber o que virá. Alguém que vive num intervalo entre o peso e a leveza, entre a angústia e a esperança, entre a escuridão e o gesto ténue que a ilumina.

E enquanto houver vento — mesmo que seja apenas este sopro tímido — haverá em mim uma parte que se ergue, ainda que por instantes. Uma parte que responde. Uma parte que se deixa tocar pelo murmúrio do mundo.

A cortina move-se. E, nesse roçagar subtil e leve, eu também, por amor, pelo vento e pela cortina.