Quando a Arte não cabe em tabelas – Por Ana Costa

Em cima da minha mesa da escola, espalhados num arco-íris de cores, estão folhas com os desenhos dos meninos da minha turma. Com cuidado redobrado, vejo cada traço, ou rabisco aparentemente caótico, sentindo que cada um deles pode carregar um significado profundo – pelo menos para quem criou. Para mim, no entanto, nem sempre é tão simples. Eles entregam-me os desenhos e, juro que faço um esforço, olho para cada um tentando perceber o que está desenhado. Às vezes, eles notam o meu olhar hesitante diante do que fizeram. Para os meus olhos adultos, a forma no papel poderia ser qualquer coisa – um pássaro ou uma explosão de cores sem contornos definidos. Mas para eles, não é assim.
A pureza com que as crianças desenham é fascinante. Elas não precisam de regras de perspetiva, proporção ou realismo. Os seus traços contam histórias, registam emoções e capturam mundos que nós, adultos, muitas vezes desaprendemos e já não sabemos ver. As crianças desenham sem medo, sem se preocupar com julgamentos ou expectativas. O lápis desliza no papel e, em questão de segundos, surgem castelos, monstros amigáveis, heróis destemidos e universos paralelos que só fazem sentido dentro da mente infantil. E o mais curioso é que, para elas, tudo isso é tão evidente que nem equacionam a possibilidade de que um adulto possa não entender.
Quantas vezes, de desenho na mão, os alunos ficam à espera da minha apreciação e eu faço um esforço, juro que faço, mas nem sempre consigo ser bem-sucedida e eles percebem… “Professora?” E lá fico eu, a tentar interpretar os traços coloridos que, para os meus olhos treinados pela lógica, parecem não fazer sentido naquele momento. Quem me conhece bem, conhece esta história. Certa vez, um aluno meu que não falava bem português por ter vindo da China há pouco tempo, mostrou-me o seu desenho e percebeu a minha hesitação. Foi aí que me disse “Perneta, Plofessora!” Franzi os olhos. Ele repetiu “Perneta, Plofessora!” E eu tentei. Tentei ver no meio daqueles traços um senhor com menos uma perna. E tentei mais. Mas não vi. E ele, coitadinho, por não ser entendido, insistia, falando mais alto “Perneta, Plofessora! Perneta!” Comecei a ficar um pouco irritada, não com ele, mas comigo. Como é que eu não via ali um senhor sem uma perna? E eu olhava cada vez com mais atenção e o André insistia com o perneta. Toda a turma estava parada a olhar para aquele momento, todos os olhos em mim, com ar de reprovação (pelo menos assim senti). Até que lhe disse “Não precisas repetir tantas vezes, já entendi que está aí um senhor sem uma perna, mas ajuda-me a entender todo o desenho!”
Do André saiu uma lágrima e uma voz triste baixinho “Perneta… Plofessora!”
Do fundo da sala, de repente, e com vontade de poupar-nos aos dois a este momento, ouço “Planeta!”. O meu mundo caiu! Como é que eu não percebi que o André desenhou um planeta e que estava cheio de vontade que eu o visse e eu não vi? Como é que não entendi a visão do André e a sua dificuldade em falar português? Por que motivo uma criança iria desenhar um perneta?
Abracei-o…. Pedi desculpa… Ele não sorriu, mas acho que entendeu a minha incapacidade momentânea…. Elogiei o desenho, mas já não consegui apagar todos aqueles minutos em que eu não fui capaz de ver o que o André queria que eu visse… E aprendi a minha lição… Nunca, mas nunca mais pergunto a uma criança o que desenhou. Ou me dizem o que é, ou então eu vou-me esforçar para perceber, mas calada, de certeza. Ou entendo à primeira ou então respeito.
Aqui entra outro dilema que enfrento como professora: como avaliar algo que é tão subjetivo? Como posso encaixar a criatividade infinita numa escala de critérios? As tabelas de avaliação são objetividade: considerar o uso do espaço, a coerência das formas e a fidelidade ao tema proposto. Mas como atribuir um conceito a algo que vem da imaginação ilimitada de uma criança? Como dizer que um desenho tem “mais valor” que outro, quando cada um deles é uma expressão única e pessoal?
Muitas vezes, sinto-me mal ao tentar quantificar aquilo que, para mim, deveria ser simplesmente apreciado. Como posso colocar uma classificação em algo que, no fundo, me emociona? Já recebi desenhos de alunos que retratavam momentos da sua vida com uma sensibilidade impressionante: o abraço de um avô, um dia especial com os pais, um sonho para o futuro. Para a criança, aquele desenho não é apenas um exercício de expressão gráfica, mas sim um pedaço de sua história. E que direito tenho eu de classificar esse pedaço de história com uma nota?
Penso que, ao crescer, vamos perdendo esta liberdade de expressão. Quando foi que deixamos de desenhar apenas pelo prazer de desenhar? Quando passamos a nos preocupar mais com a técnica do que com a intenção? Os adultos, ao contrário das crianças, tendem a buscar a perfeição nos detalhes, a preocupação com a forma correta, com a simetria, com a exatidão das proporções. Perdemos a coragem de simplesmente criar sem medo de errar. As crianças, por outro lado, criam com o coração. Para elas, não existe erro na arte, apenas a vontade de contar algo através do desenho.
No fim, aquilo que sinto é que a aprendizagem não é apenas para os alunos, mas também para mim: aceitar que nem tudo precisa caber em tabelas e que, às vezes, a arte infantil não deve ser medida, apenas apreciada.
Na sala de aula ideal, naquela que tento construir todos os dias, ao invés de tentar interpretar cada traço e encaixá-lo em padrões, eu devia sentar-me ao lado dos meus alunos e pedir: “Conta-me essa história!” Na escola ideal, os professores deviam ter tempo para estar com os seus alunos, conversar com eles e tentar aprender de que forma se exprimem. E aí não havia pernetas, mas sim planetas inventados, que na nossa imaginação bem que poderia existir.
Todos os dias, tento que a escola, a minha escola, seja um lugar de confiança e de aprendizagens mútuas, onde há trocas de ideias e sentimentos e muita partilha. As classificações são apenas balizas onde encaixamos aquilo que fazemos, mas o que realmente importa são as descobertas e as experiências e a forma como vivemos a escola e tudo o que nela se vive.
Cada criança, cada desenho traz consigo um universo inteiro – e era mesmo bom que pudéssemos olhar para cada uma (e para os seus desenhos e textos) com os olhos e ouvidos certos. Nunca mais perguntei a uma criança o que desenhou, tento interpretar e quando não consigo, a incapacidade só pode ser minha e nunca daquele ser pequenino com um coração enorme.